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VIVER DIFERENTE, MORRER IGUAL
NONATO MENEZES

          Só uma coisa nos torna totalmente iguais: a morte. É a morte que me faz igual a Howard Hughes, a Jean Genet, a Hannah Arendt. Somos iguais enquanto vivos pelas diferenças que temos. Temos sorrisos diferentes, diferentes tons de voz, um viver tão diferente que mais parecemos ser de espécies distintas.

         As recentes tragédias naturais mostraram isso. O que faz mesmo a diferença entre nós é a vida que levamos. A comoção, o pesar, a solidariedade ou até mesmo o ódio não aflora por causa da morte em si, mas porque o morto teve uma vida de glamour, de poder ou de diferentes habilidades em alguma coisa.

         As mais de cem mortes em Santa Catariana, por exemplo, provocadas pelas recentes chuvas, tiveram atenção especial da mídia, que fez a sociedade se solidarizar e lamentar por um longo tempo. O objetivo da fala dos repórteres não era simplesmente o de informar, como se espera da linguagem jornalística, mas era claro o desejo de incitar pesar dos expectadores. Esta fuga da função referencial para a apelativa e emotiva criou comoção. Era o tom de voz da dor, do lamento.

         Com os mais de quarenta mortos pelos mesmos motivos no Nordeste, tiveram "atitudes" bem amenas. O tom de voz dos apresentadores não teve o mesmo clamor, a dor parecia menor ou simplesmente parecia não existir.

         Não foi a quantidade de mortos que fez a diferença da liturgia, nem o fato em si de morrer sublinhou o tom de voz, o clamor, a solidariedade dos apresentadores de notícias e de boa parte da sociedade. A diferença foi extraída da região em que os mortos viveram, de como foram as vidas dos que se foram. Morrer na Suíça não é diferente de morrer na Etiópia, mas viver em Berna é bem "mais importante" que existir em Adis-Abeba. 

         Dois aviões caíram recentemente em águas profundas, só uma adolescente, africana de origem, francesa de nascimento, sobreviveu. Neste caso não houve clamor, não noticiaram dor.

Da primeira tragédia as notícias mostraram um inferno visível, cheio de injustiças. Os clamores por justiça vieram com um apelo profundo a que todos sentissem dor. Expressões de lamentos e pesares circularam em manchetes pelo mundo. As dores ganharam velocidade e amplitude, geraram sensações de desrespeitos com aquelas vidas perdidas e com seus próximos.

         A segunda tragédia não nos comoveu, o alcance das notícias foi tão pequeno que não deu nem para fingir dor. Com mais de cento e cinqüenta mortos a dor não nos atingiu, não tivemos lamentos na estética das notícias, nem exaltação do desespero nas frases de efeito. Foi um evento menor de significados de vidas e de mortes.

         Na primeira tragédia, as vítimas eram brancos franceses, executivos brasileiros e outros; gente de vida fina, animados pelo progresso e que não deveriam morrer, pelo menos naquele momento, nem daquela maneira. Que injustiça! Era preciso que fossem respeitadas as dores de seus próximos. O clamor, quase universal, não foi pelas perdas em si, mas pelo espaço social e geográfico em que habitaram as vítimas. 

         A segunda tragédia provocou uma recepção amena, sem clamor e quase nenhuma dor. Os noticiadores não se lamentaram, nem derramaram pesar, apenas noticiaram. Foi cumprida aí, a verdadeira função da linguagem em questão. Deram números, tentaram apresentar os motivos, mas os interesses cessaram e as dores não foram provocadas. Logo, aquela tragédia deixou de fazer parte da pauta. Só não desapareceu completamente do noticiário porque um "milagre" aconteceu. Uma adolescente negra, de origem africana, nascida e residente na periferia de Paris, "ousou" sobreviver agarrada a um fragmento da aeronave que fora despedaçada. Sem saber nadar, ela sobrou para fazer parte das notícias como milagre, não como ser humano. A vedete daquela tragédia não foi a dor, nem o desespero nem o clamor. Foi o milagre. Os que morreram não tinham importância, nem pela morte muito menos pelas vidas que levavam. Quase todos eram africanos de origem, nascidos ou residentes nas periferias das grandes cidades francesas. Eram desprovidos. Desprovidos não merecem clamor.         

A morte nos nivela irremediavelmente. Brancos, pretos, ricos ou pobres desembarcam no mesmo porto escuro da eternidade, tão iguais que não valem nada e para nada servem. "Navegar é preciso, viver não é preciso". Morrer nem navega, nem tem utilidade. É o fim, é o nada.

O que importa, o que engrandece o clamor e a consternação é o que fazíamos, onde vivíamos, o que éramos. A morte de uma estrela motiva lágrimas e brado. Ao morrer um desprovido, nem notícia, nem tristeza, nem dor.


07/07/2009

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