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O FEITIÇO DE CLARICE
MÁRCIA GUEDES[1]

             A idéia de contar me atacou como urticária no pedal da bicicleta. Antes de saber se ficava alegre ou triste já as palavras saltavam fora de mim como felizes passageiras de um cometa.  Lembro que peguei o livro na prateleira do shopping e saí sem duvidar do título. Na capa, a mulher de saltos altos sobe com elegância os degraus de uma escada recoberta por um comprido tapete vermelho aveludado. Desejo uma narrativa que se passa no palácio de uma embaixada. 

            Ávida para mergulhar em suas páginas, mas cercada de processos, entre ofícios e despachos, acaricio com os olhos o nome da autora em relevo. Que pessoa ilustre a teria inspirado a escrever um romance? Quero tudo tintim por tintim: nomes, fatos, datas e lugares.

             Ela, que tinha o que contar, fazia mistério. Viveu na Europa, entre embaixadores e cônsules, esteve com personalidades ilustres e outras apenas lustradas. Numa carta que enviou para as queridas irmãs, falava de seu tédio de viver no estrangeiro, sem lar e sem amigos. Não gostava de lugares [dizia], gostava de gente de carne para sentir, sentar e conversar.  Com enfado, arrastava as aparências que a obrigavam sempre a ficar em evidência de brincos e batom, subir [literalmente] nos saltos, a sorrir  e  fazer sala.

            Não se iluda, o mundo que temos é herança da guerra, inclusive ela. Uma das mãos, ambas devotadas às teclas da máquina de escrever, inchava de tantos apertos, e magoavam-lhe os ouvidos os cumprimentos protocolares: "encantado, senhora", "muito prazer, senhora". Meu tempo é parco, fique ligado. Entre outras coisas, assino um ofício que diz assim: "Informo a Vossa Excelência que desconheço fatos que deslustrem a ilustre figura do [...]". A burocracia é estúpida! 

            Das histórias de amores e prazeres [alheios] nos salões das embaixadas, ela vai fazer tesouro para o seu correio sentimental.  Mas, como mera ghost  writer!  Não me conformo, sinto como um punhal.  Por que fizeram isso, logo com ela?  Se chorou, não deu sinal. Caprichosa, cuidava de tudo, da escrita à edição __ diz o patrão.  Mas a coluna outra assinava!  Humilde operária com dois filhos no colo, no seu íntimo sabia que toda estrela tem sua hora.  

 

 

[1] Márcia Novaes Guedes. 17 de maio de 2009.

 

Um vento outonal tange a bicicleta, fazendo deslizar suavemente o pedal.  Aprumo o guidão e vejo "Mocinha" na outra margem da estrada.  Tem a pele encardida e a magreza igual, mas no lugar do vestido preto e sujo de baba, meleca e ovo, estava envolvida numa saia dominical de barrado vermelho-coral.  Corro os olhos para suas mãos e, vendo que não carregam pedras, aceno.  Mas, fico intrigada com aquela boina preta de quinas e que lhe dá um ar afrancesado. Ao meu aceno ela, delicadamente, responde com um "tchau", e retoma circunspeta o monólogo que discorre para alguém que, invisível, segue do seu lado, vadeando.

            __ Hei... Voz de menino que se perdeu das estrelas. Giro o polegar 90 graus. A Voz silencia. Quem me vê pedalando não duvida de minha mania.  A língua corre frouxa, palavras borbulham e saltam como gêiseres e quando dou por mim, já escaparam. Reagrupá-las e aninhá-las novamente é uma trabalheira dos diabos, algumas esfriam e outras se refugiam e muitas se perdem inelutavelmente. Procuro um jeito de recuperar aquelas que  perdi em Vitorio Veneto. 

            De manhã cedo é a hora em que mais distraio com as palavras. Para sentir seu sabor, aspirar seu perfume, medir seu tom, volume e temperatura, me envolvo em tramas atabalhoadas.  Hoje já estive na praia e já sofri a dor de perder um filho que vi se afogando no mar. Martírio pior não há. Transida de dor, nem quero lembrar, rolei na praia deserta e ninguém para me enterrar.  O mar é um saco amniótico e morro de pena de ver ondas se quebrar.

            Inez Yara não, arrebentava-se de gargalhar.

            Quando ainda não dominava a gravidade [como se fosse possível], já sabia quão clandestina é a felicidade. Cismou tocar o azul do firmamento, saltando do muro para as galhas da mangueira. Quebrou a bacia e penou para emendar a auto-estima abatida, mas nem por isso se rendeu.  No quarto de dormir, armou um circo. Trocando figurinhas, meninos vieram de longe ver o palhaço de pau fazer cabriolas pulando amarelinha. Vestido, grinalda, buquê. Afrouxados os laços de família, Inez tomou o caminho do mar sem medo. Estava feliz demais para viver. Nonato, que a teve nos braços, até hoje chora como um bebê.

            Dissolvo as tintas ainda mornas e sem prazer. A essa altura, a dor é pública. Chico Buarque fez uma canção de ninar para Zuzu e seu filho, que mora no fundo do mar. Hora crua! Agora, Inez Yara é nome de rua.

            Nascer é muito doloroso. É na bacia que guardamos as mágoas, e destravar as vértebras é arrancar segredos de dentro de si. Com o tempo, as mágoas viram nós cegos, e desatá-los dói tanto, que precisa coragem para sofrer bem de mansinho. Não ouso pedir ajuda como ela me pediu sem nenhum pudor: "Você que me lê, me ajude a nascer". Desamparada, destrambelho, juntando letras, montando palavras, costurando parágrafos e [ufa!] estourando a paciência de quem me lê.

            Depois de beber água viva e visitar uma legião de estrangeiros, estou pronta para confessar: Meu burocrata alter ego adulterou um romance de uma escritora de fama.   Isso é bem pior do que matar os peixes.  Percebeu a encrenca na qual me meti? Mil vezes estar no epicentro de Abruzzo a ler tal manchete: "Autoridade 'traslada' obra de Clarice Lispector". Já estou vendo os autos e o processo.

               Auto-sugestão!  Diz a psicanálise.  Por sorte meus inimigos não me lêem. 

            Chega de clichê. Dê no que der vou dizer: não tem personagem ilustre nenhum! O Lustre, que me enfeitiçou, é um astucioso jogo de palavras que não anunciam nada nem experienciam situações. Mas essa trama, que nasce do inefável, é mistério [sem casa malassombrada] cuja entrada é acessível apenas ao corpo sutil.   

             Frei Antonio, com aquele seu jeito de cane barbone, contou-me que, quando voltava do seminário para casa, esquecia o italiano e se entregava com gosto ao dialeto de seu paeselo e se lambuzava com o sabor das palavras.  No Brasil, sente o mesmo prazer quando chupa manga até o caroço.  No quintal do convento da freira tem manga e mangueira. Clarice encheu o mundo de lenda e alento, e soprou vida em Ângela Pralini, que, quando meneia a cabeça me lembra Inez.

             Oh!  Sinto que vou enguiçar.

 


25/05/2009

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