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PERGUNTANDO AO VENTO
MÁRCIA NOVAES GUEDES*

             Domingo, 35º C na sombra, saio de bicicleta fazendo perguntas ao vento. Vou ao Grama ver Dãozinho e Duce Carmo. Na imensidão do baixio, entre sete colinas caprichosamente esculpidas, vive parte do bilhão de humanos que não tem água limpa e suficiente para beber. Quantos desertos serão necessários, e quantos Lapões vão afundar para que a gente se dê conta.

 

            O casal sobrevive da aposentadoria dele. O solo empobrecido não germina nem rama de mandioca. Mas, a infância dos dois foi na fartura, pendão de milho chegava à cumeeira da casa __ garante Dãozinho. A brincadeira predileta era pula-pula de pedra em pedra, sem banhar os pés, tangendo passarinhos das plantações de arroz. Hoje, a ASA [Articulação do Semi-árido] está construindo uma cisterna que recolhe água de chuva pelo telhado para que eles sobrevivam.

 

            O Grama fica em Guanambi.  A cidade plana e arborizada é uma senhorita de 80 anos no sudoeste da Bahia, a 780 quilômetros de Salvador.  Embora esteja muito longe de Wadi Fynan, é possível que Guanambi termine do mesmo jeito. Há 11,5 anos nossos ancestrais escolheram Wadi Fynan para começar uma civilização. O clima era fresco e úmido, a paisagem coberta de vegetação tinha figos, legumes e cereais, e cabras selvagens para alimentar. Hoje, o WF16, como é conhecida Wadi Fynan, é o deserto da Jordânia. 

 

            Lapão quer dizer grande caverna. E foi em cima de uma gigantesca caverna que outro grupo de humanos construiu uma cidade, também na Bahia e perto da Chapada Diamantina. Ao descobrir que debaixo da terra corria um rico lençol freático não perderam tempo, cavaram nada menos que 11 mil poços artesianos, que bombeiam água para irrigação em escala industrial!  Resultado: Lapão está afundando! Ruas, praças e casas estão rachando. Por último, apareceu no campo uma fenda de 3,94 polegadas de largura e de profundidade ignorada.  O mistério foi desvendado pelos geólogos do Instituto Tecnológico de São Paulo: a fonte de água subterrânea está secando e a terra cede, se movimentando para colmar os espaços vazios. O lugar vai mesmo afundar, afirmam os estudiosos, só não se sabe com que velocidade.

 

            Na Faculdade de Guanambi, onde fingimos não sentir a fedentina que invade os corredores, meus alunos estudam que meio ambiente é bem de uso comum e a Constituição vinculou todos a defendê-lo para as gerações presentes e futuras.  A escola, porém, foi assentado sobre um esgoto. Dia desses, a terra cedeu no estacionamento, cavando uma fenda capaz de engolir um carro.

 

            Esgoto, o quê? __ desdenha Dãozinho.  Aquele era um córrego de água doce e cristalina. A prova está na escada, construída pelos moradores, para facilitar o trabalho das mulheres de encher as vasilhas e subir com as bilhas na cabeça. Não invejo Leonardo Boff, também tenho amigos que deveriam estar na Universidade ensinando, ao invés de estarem aperreados numa fila da Previdência Social.

 

            Se há 50 anos tinha plantação de arroz no Grama, a Lagoa de João Amaral, que está ameaçada de ser aterrada pela especulação imobiliária, não era a única. Dãozinho meneia a cabeça, envergonhado de minha ignorância. Guanambi tinha uma lagoa para cada mês do ano, sem contar os caldeirões e as águas de minação. A Praça do Foro era um alagadiço onde todos apeavam os animais no dia da feira __ não sabe? No Monte Pascoal, ocupação dos Sem Terra expulsos do Vale pelo algodão, não tinha apenas o caldeirão que serviu de cova para o corpinho nu e sem os seios da menina Leocádia __ arrancados pela mulher do coronel enciumada e a ele oferecidos de sobremesa.  O Monte era um imenso caldeirão que dava água à cidade o ano inteiro. 

 

             A abundância de água no baixio de Guanambi é comprovada pela quantidade de fósseis de preguiças gigantes de 16,40 pés de altura __ que viveram entre 1 milhão a 10 mil  anos, espreguiçando-se pela  bacia do Rio São Francisco, e descobertas por acaso, durante as escavações para  limpeza dos profundos caldeirões na época das extintas Frentes de Trabalho da Seca. 

 

            Na boca do que, certamente, restou de um vulcão construiu-se a barragem de Ceraima para irrigar o Projeto de Colonização dos generais. A barragem, além de Guanambi, abastece Candiba e Pindai, cidadezinhas que vêm perdendo seus olhos d'água por conta da desertificação, provocada pelo desmatamento, pelas queimadas e pela extração do carvão vegetal. Os moirões das cercas são tragados pela voracidade da areia que vai cobrindo tudo e deixando à mostra apenas a razão cínica.

 

            Outro barramento artificial foi construído, Poço do Magro. Antigos moradores do lugar advertiram que animal não bebia a água daqueles córregos canalizados para o lago. Não foram ouvidos.  Depois de construída a barragem, estudos demonstraram que, devido ao grau de dureza e cloreto, a água é imprestável para o consumo humano. Hoje, em Ceraima restam 150 metros cúbicos de água e já estão bombeando água de Poço do Magro para aplacar a sede dos pobres. Os ricos compram água mineral.

 

            O que aconteceu com o Grama de Duce Carmo e Dãozinho? Nos anos setenta, o vale do Iuiu __ o imenso pulmão verde de cedros e baraúnas centenárias, que equilibrava toda a bacia do São Francisco, foi derrubado e queimado para plantar algodão. Virou um formigueiro de gente miúda e semi-escravizada. O agrotóxico era despejado por via área. Um homem com uma bandeira vermelha orientava o bombardeio.

 

            Na cidade, que ainda não tem um aterro sanitário e o chorume penetra o lençol freático, ergueram prédios públicos, bancos, mansões cinematográficas e um aeroporto. No auge do algodão, cada fazendeiro tinha dois aviões, um para o trabalho e outro para o lazer. Cortaram as veias da cidade entupindo, aterrando e tampando os mananciais de água, nem o Riacho do Belém, nos fundos do Museu de Dona Dedé, escapou! O Rio Carnaiba, que despeja impunemente sua lama no Rio das Rãs, e este, por sua vez, desemboca no São Francisco, foi criteriosamente concretado, e sobre ele montaram o mercado municipal.

 

            Guanambi é cidade feminina. Pecado que ninguém pensou em se aliar às suas formas côncavas e banhadas e canalizar toda a água e dela fazer uma Veneza! Para castigar seus moradores, ela está cada vez mais parecida com o WF16!

 

 

* A autora é Juíza do Trabalho de Guanambi Bahia.


04/12/2008

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