50 anos depois da Revolução visito Cuba. Como Fidel, também sai da Península de Yucatan, mas a bordo de um Foker 100 nas vésperas das comemorações do Dia de los Muertos, deixando para trás as cidades Mayas de um México profundo e de civilizações superpostas.
Faço coincidir as férias para atender ao convite da jurista e amiga Lídia Guevara e palestrar no VI Congresso de Derecho e Seguridad del Trabajo. Pousei no Hotel Nacional da cidade de La Habana, e assombrei advogados e juízes de toda América Latina falando, a propósito do assédio moral, do risco da banalização do mal no Foro.
Engana-se quem pensa que a banalização do mal no foro ocorre devido ao volume de pedidos de reparação de danos provocados pela praga do assédio moral. Na verdade, é a procedimentalização que tendencialmente devora as categorias éticas: verdade e justiça. O fim do direito, notou Kafka, é o julgamento judicial. Historicamente, foram os 12 veredictos de Nuremberg e mais o julgamento de Eichmann em Jerusalém que impediram de pensar Auschwitz __ afirma o filósofo italiano Giorgio Agamben.
O processo visa a solução do conflito e, muitas vezes, o ato de pensar é sacrificado. Pensar dá angústia. Acontece que, toda vez que deixamos de pensar praticamos o mal. A banalização do mal decorre precisamente da suspensão do pensamento. Porque somos seres morais temos a faculdade de distinguir o bem do mal. Quando deixamos de pensar afastamos as balizas da ética: verdade e justiça. "Aboli do meu vocabulário duas palavras: verdade e justiça" __ disse-me um velho juiz, assim que me tornei magistrada.
Perseguir o constitucionalismo paradigmático orientado pelo reconhecimento do Outro e, além da satisfação monetária pelo dano, determinar que seja afixado em local público o nome das vítimas e das organizações que praticam assédio moral; e obrigar os perversos a redigirem missivas pedindo desculpas às vítimas, com cópia distribuída para os demais trabalhadores, pode ajudar a minimizar a banalização do mal no tribunal.
É férias! A noite ajuda a fugir do mundo dos conceitos para me entregar ao mundo sensível da arte e do belo, da estética de uma Alicia Alonso, que comemora o sexagenário do Ballet Nacional de Cuba com uma moderna e original coreografia executada por um corpo de bailarinos que nada fica a dever a um Kiev ou a um Bolschoi, nos seus melhores momentos. Na Sala García Lorca do Grande Teatro de La Habana assistimos La Bella Dormiente del Bosque com música de Chaikovski. São duas horas de alheamento e êxtase.
No dia seguinte deslizamos pelo Malecón, banhado, numa velha aerowillis rosa-choque e sem capota de um taxista que diz odiar Cuba, mas por 5 dólares nos leva direto ao Paseo de Martí [Prado] onde está o Capitólio. O símbolo da cidade é um magnífico exemplar do neoclássico com art decò, abriga a biblioteca nacional e a Câmara dos Deputados. Enquanto me agacho, buscando um ângulo para a foto, Natalia, uma garotinha que está trocando os dentes de leite, sorrindo me diz que é seu aniversário e quer um chocolate. Nas feições da mulher que a acompanha, busco e não vejo os traços da mãe.
Antes de perder os passos, seguimos a pé para o antigo palácio presidencial do ditador Fulgencio Batista, onde está o Museo de La Revolución. Aqui a história ainda está contada por recortes de jornais embebidos em parafina. Satisfaço a curiosidade de um colegial, uniformizado de calça e boina vermelha, mostrando-lhe como funciona a câmera digital. Mas quase caio de costas ao ver Camilo Cienfuegos e Che Guevara suando em plena Selva. No estilo do Museu de Cera Britânico, a obra, em medidas naturais, é presente de um artista plástico.
O furacão Gustav deixou apenas batatas para comer e há seis meses ninguém come legumes nem frutas, mas nessa Ilha o dia arrebenta alegre e sem poluição. Quem sabe, o povo sorveu o melhor de seus heróis. Um grupo de estudantes carrega flores para depositar no mar em homenagem a Camilo Cienfuegos __ herói de Yaguajay que desapareceu em 28 de outubro de 1959. As homenagens se encerram ao cair da tarde com um concerto no Pabellón de jovens cantautores. Seguramente, Cuba não é uma fotografia na parede, porque a mens cogens daquele povo é: danço, logo existo hasta la victoria siempre! Estando lá é impossível não voltar ao sentir profundo de los desessiete años. Imagens dos heróis da revolução e o busto desenhado ou esculpido do Libertador José Martí decoram praças e avenidas. Os muros dos prédios públicos estão recobertos de cartazes com mensagens humanistas, que, um dia colamos em outras cidades, mas se rasgaram sob a chuva e o vento de um tempo desapiedado.
No Prado, vestida de branco e adornada de colares e turbante, Nancy faz sua féria jogando a sorte com os búzios, inclusive a dos estudantes brasileiros de medicina que, há seis anos, aguardam uma solução do Governo quanto ao reconhecimento do diploma. Tolstoi seria facilmente confundido com um galã de telenovelas brasileiras se vivesse no Rio de Janeiro. Conheceu o mundo jogando vôlei na seleção e hoje é garção de La Fênix. Comendo arroz frito e provando "mojito" vamos acostumando olhos, nariz e boca e criando coragem para ensaiar passos de salsa numa das tantas Casas Noturnas de La Musica. Ponto onde jovens cubanas atraem turistas de meia-idade chegados a sexo comprado, mas seguro. As meninas têm formação escolar e sabem se cuidar.
O dia da partida é de chuva e ventania. Paloma, o último furacão, está a caminho. As horas se comprimem, mas falta ver o Museo de Bellas Artes. Instalado em um moderno palácio entre o Paseo do Prado e a Avenida de Las Misiones lá está ele. Logo no pátio, a desconcertante escultura feita de "moca" __ a cafeteira predileta dos italianos. A coleção permanente do museu é composta de obras de arte colonial, acadêmica e do século XX e está abrigada em três galerias.
Sem catálogo, sem guia e sem áudio tomo o elevador e dou de cara com Aracelia. Ela trabalha no museu e é apaixonada pelo Brasil. On line conhece o MASP e o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em poucos minutos me explica o melhor circuito a fazer e facilmente localizo o tríptico de Hans Melling, A Sagrada Família de Bartolomè Esteban, a escultura de Rita Longa, La Habana em Rojo de René Portocarrero e La Silla de Wifredo Lam. Relaxo e vou sorvendo Cuba por telas, tintas, cores e formas. Aqui, a modernidade chegou sem lixo.
Pronto, vi Cuba antes que a definitiva noite se espalhe. Quem ainda não a viu corra, pois lá deixei o Presidente Lula com uma caravana de empresários ávidos de investimentos!
* A autora é Juíza e Doutora em DT pela Universidade de Roma.