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SEM RAZÃO E SEM VIVÊNCIA
NONATO MENEZES[1]

Comenta-se sobre um dos momentos da intensa vida política de Gandhi em que foi abordado por uma senhora que, em tom de clamor, lhe fez um pedido nada comum. Ela pediu ao mestre que convencesse seu filho a deixar de comer açúcar.

Gandhi não esboçou qualquer dificuldade em atendê-la, disse apenas que precisaria de certo tempo para fazê-lo. A conversa parou aí.

Meses depois, a mãe ao perceber que seu filho não havia alterado em nada seus hábitos, procurou Gandhi novamente. Ao abordá-lo foi incisiva, perguntou se havia esquecido o pedido feito a ele. Gandhi disse que não havia esquecido, pois acabara de conversar com o filho dela a respeito do assunto.

Incrédula, ela perguntou:

- Por que o Senhor demorou tanto a conversar com ele sobre isso?

 Ele respondeu:

- É que eu precisava passar certo tempo sem comer açúcar para, só depois então, fazer o pedido a ele. Ela calou-se e nunca mais o abordou.

 Se há algo que a vida não deixa de nos ensinar é ser a razão humana insuficiente para compreendermos o mundo. Aprendemos que a compreensão do que nos cerca é sempre insuficiente, por mais que saibamos pensar, planejar e pesquisar. O mundo é muito mais do que aquilo que pensamos e queremos que ele seja. Mesmo o mundo que imaginamos pequeno, aquele que se fia ao nosso redor.

Também não é suficiente apenas a vivência para que o mundo seja adequadamente compreendido por nós. A vivência, por si só, é também, insuficiente para entendermos o que nos cerca. Por mais tempo que a vida dure e por mais sofrimentos aos quais que sejamos submetidos, jamais o mundo nos aparecerá com clareza, adequadamente compreendido.

Concomitantes, o pensar e o vivenciar como uma única esteira da vida nos impõem um limite: o que nos rodeia é e será sempre inadequadamente compreendido. Não há conhecimento que vá além? Assim como não há experiência que nos dê certezas que nos ampare com a verdade absoluta sobre o mundo.

Pensar é um atributo e vivenciar o que pensamos e uma condição da nossa existência. Isso, porém, não chega a ser, isoladamente ou não, suficiente para compreendermos o que nos rodeia.

É nas circunstâncias das nossas vidas que o pensar e o colhido de nossa vivência são exigidos e postos à prova. Juntos poderão nos conduzir à sensatez, assim como ao mais torto dos procedimentos. Mas é esse o caminho mais seguro, pois só ele nos dá as condições de estarmos mais ou menos com a verdade, seja ela relativa ou não.

Sensatez, então, não parece ser característica de boa parte das pessoas que ocupam o poder político em nosso país. Muitas vezes, por força do seu "usufruto" o que temos são pessoas que se ausentam de ambos. Desconhecem o mundo ao qual se referem porque "não sabem" pensar e deslizam no engano porque não vivenciam aquelas circunstâncias para poderem se pronunciar.

São muitos os exemplos, mas tomo como referência a expressão pública do setor de Educação do Distrito Federal, porque a ele - parece - cabe o direito ou obrigação de achincalhar os professores da Rede Pública. Como autoridade e com os recursos de que dispõe, não perde oportunidade de insinuar que somos inoperantes, indolentes e até mesmo que somos caudatários de atitudes criminosas.

Nesse último caso, em pronunciamento recente, às vésperas do dia de comemoração aos professores, o secretário se referiu ao adoecimento, em número elevado, dos professores da rede.

Para ele há falsidade nas doenças, tanto que, em maior número, costuma ser às vésperas de feriados prolongados. Acusa-nos, sem provas, sem pensar e sem vivência, que recorremos a atestados, possivelmente falsos. Acusa-nos de inventarmos doenças e acusa os médicos de concederem atestados falsos. Uma atitude não invalida a outra: somos mesmo, nós professores e os médicos, falsários, portanto criminosos.

Aqui vale comentar sobre a razão que o secretário não tem e sobre sua vivência que passou alhures.

Falta-lhe razão, porque sua fala é baseada em vagas hipóteses ou no disse-me-disse dos corredores da Secretaria. Desconheço algum professor ou professora que estar de atestado, tenha se submetido ao detector de mentiras ou a perícias "rigorosas" a fim de que seja comprovada a enfermidade ou a mentira sobre a doença.

Faltam ao secretário elementos objetivos para acusar a nós professores e aos médicos de falsários já que não dispõe de dados para nos chamar de mentirosos. O que o secretário faz muito bem é avançar o sinal da pouca responsabilidade e falar muito sobre o que desconhece.

Das causas dos adoecimentos elevados dos professores, o secretário sequer tem mostrado interesse em saber a respeito deles. Uma perguntinha, cuja resposta poderia ser esclarecedora, o secretario não se presta em fazê-la. Essa situação, por exemplo, tem data de agravamento? É possível precisar o momento em que esse quadro desalentador tomou conta do ambiente escolar?

É claro que o secretário jamais fará perguntas desse tipo; nem a ele mesmo, nem a ninguém.

Mas vou ajudá-lo. Secretário, recorra aos dados do ano de 2000 até o presente momento e, sem aprofundamento, faça a leitura das alterações no ambiente de trabalho dos professores. Observe, por exemplo, a grade horária, o número de alunos por professor, a pressão burocrática que passou a nos submeter, entre outras. Se o senhor observar bem, o que parece não ser seu objetivo irá concluir que a maioria das causas do adoecimento dos professores da Rede Pública do Distrito Federal mora exatamente aí. É nesse momento que o descaminho do ensino público do Distrito Federal é sedimentado, com visível propósito que não o da qualidade, do respeito a todos ali envolvidos.

Ainda que os dados sejam colhidos e usados, é pouco provável que o secretário seja convencido do assunto em causa, pois lhe falta outra circunstância essencial: a vivência.

O secretário, pelo que tem dito e demonstrado, não tem a menor idéia do que seja uma sala de aula nas condições atuais. Uma, por exemplo, com 42 crianças de 12 e 13 anos, com alunos e alunas deficientes - em atendimento ao criterioso projeto de inclusão - e todas as dificuldades que nela convivemos.

Também, o secretário desconhece o que significa lidar com quinhentos ou mais alunos por semana nas condições atuais.     

É claro que o secretário não teve, nem tem essa vivência. Sua vivência é nos gabinetes assinando portarias, onde muitas delas são corrigidas depois. Teórico do tecnicismo de gabinete, o secretário só aponta para dois caminhos: O do desconhecimento e o da falta de experiência.

Se, pelo menos, tivesse a vivência das nossas salas de aula, por mais desatento que fosse, seria pelo menos respeitoso. Jamais se utilizaria do cargo que ocupa para fazer valer um projeto de interesse de grupos que, para atendê-lo, criam os motivos e reitera o discurso do achincalhe, do desprestígio.

É com o dedo do "eu acuso" voltado para nós professores, que o secretário e seu governo falam em melhoria do ensino, em atingir metas falaciosas, em defender programas "arranjados" como o "Ciência em Foco" e o "interventivo/correção de fluxo/aceleração", como meios eficazes e de responsabilidade pública.

Mais tempo, menos tempo. Mais agressão, menos agressão. Nesse ritual, uma coisa já nos parece evidente: quem, de fato, são os mentirosos.

 

Nonato Menezes

Professor da Rede Pública de Ensino do DF

http://www.ensinopublico.pro.br/

 


24/10/2008

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