Quando as baratas aparecem durante o dia, é sinal de que o lixo é tanto que elas estão se reproduzindo muito rapidamente.
Porque baratas gostam do escuro, do lixo escondido e com isso garantem a força de sua espécie. Quando formos embora, elas continuarão aqui, esperando a nossa volta.
Por que escrevo sobre baratas? Baratas são nojentas, organizadas, amantes do lixo e do escondidinho e proliferam rapidamente. Argh!!
Mas as baratas me vieram à mente tal o nojo que sinto do que nos tornamos como Estado e como Nação.
E o pior é que todos nós, sem exceção, somos culpados pela proliferação das nojentas baratas.
Quem deixa lixo espalhado?
Quem descumpre a lei, quando é conveniente?
Quem usa saquinho de supermercado para acondicionar lixo?
Quem pede desconto para pagamento sem recibo?
Quem joga o lixo no chão?
Quem acha certo passar no sinal vermelho, quando não vem ninguém?
Quem tem preguiça de varrer a sujeira?
Quem deixa os síndicos descumprirem a convenção do condomínio?
Quem junta lixo por medo de jogar fora algo que já foi bom?
Quem acha melhor deixar como está para não piorar?
Quem mantém cantinhos sujos fora da vista das visitas?
Quem bate na mulher e posa de homem respeitável?
Quem põe lixo debaixo do tapete?
Quem se recusa a aceitar que qualquer tipo de tortura é crime?
Quem constrói cidades sem esgoto?
Quem compra carro todo ano e atrasa o pagamento da empregada?
Quem admite que um ser humano more em lixões?
Quem nega direitos trabalhistas a seus empregados?
É disto que as baratas gostam: muito lixo.
Ao nos acostumarmos com as pequenas contravenções, deixamos o ar mal cheiroso a ponto de nós acostumarmos a respirá-lo e não percebermos mais a sujeira.
A coisa que mais ouço nos dias de hoje é: Todo mundo faz...!
Então por que nos admirarmos com o poder do crime sobre o Estado? O Estado somos nós. Nós que nos acostumamos a ser lenientes com o erro e deixamos o crime se organizar e criar tentáculos, como uma sinapse enlouquecida que captura todos os neurônios. Um cérebro assim, só pensará e agirá no crime. Até que a grande sinapse o inviabilize de funcionar e, como um câncer, mate o hospedeiro.
Deixamos de perceber que o crime deve ser combatido a cada momento de nossas vidas. Sem tréguas. Sem concessões. Sem desculpas. Sem medo.
A cada dia, se passarmos a prestar atenção, veremos que ele estende seus tentáculos sobre nós. Em coisas simples, tão simples, que não nos parecem importantes. Como se fossem drogas escondidas em bombons.
É preciso que nos desinfetemos para respirar ar puro. Assim conseguiremos identificar o crime pelo cheiro.
Só assim nos livraremos das baratas.
Vera Lúcia Soares da Silva
Psicóloga. Trabalha com psicoterapia.
É orientadora de pais e professores em Brasília.