Parece que os laivos fascistas nunca saem de cena. Em sua forma mais crua ou de maneira velada, a ideologia da truculência está sempre prestes a reaparecer, seja de maneira torpe, com violência escancarada, seja de maneira sutil, abrigada pela ação política institucional.
O fascismo torpe, não institucional, brota como por encanto. Aqui e alhures os "skinheads" e os "hulligans" são exemplos semi-acabados de sujeitos fascistas. Jovens, em geral, subsistem com argumentos e atitudes pela defesa da "pureza" social. Por se sentirem melhores, delimitam o chão que atuam e as crenças que proferem. Para fazerem valer seus ideais, violam o direito alheio e sancionam a violência como critério de defesa e de auto-preservação.
No plano político-institucional a alma fascista fica soberba, porque legitimada pela "vontade popular". Eleitos, os fascistas se tornam autoridades que nomeiam outros fascistas, que viram autoridades. Assim, algumas instituições do Estado passam a ser inegáveis abrigos de fascistas. Mas há fascistas também nas empresas, nas igrejas e em tantos outros ambientes, sejam profissionais ou não.
Ainda é muito comum depararmos com comportamento fascista entre nós, marcados por mais de trezentos anos de escravidão, ou iluminados pelas luzes perigosas vindas de outras culturas.
Até as duas primeiras décadas do século passado, a truculência entre nós tinha como fundamento a cultura da Casa Grande. Foi ela quem afeiçoou o fazer político nacional.
O Estado Novo e o Regime Militar, além de conservarem princípios da Casa Grande, incorporam o jeito bruto de governar dos fascismos europeus. Juntos, esses dois momentos duraram o tempo de uma geração, período suficiente para fazer escola. Com intervalo, é verdade, mas criou marcas em muitas almas e encorajou inúmeras vontades.
Na nossa contemporaneidade, alguns presidentes, prefeitos e governadores, "legitimados pela vontade popular", - "os fascistas democráticos"-, ataram às suas políticas o jeito fascista de governar. Uns são sempre fiéis aos princípios do fascismo de berço, por mais que queiram convencer seus eleitores que são democráticos. Outros criam seus próprios jeitos de serem fascistas; conservam os princípios da Casa Grande e os floreiam com os adereços do maior de todos os fascismos: o mercado.
O Governo do Distrito Federal é um exemplo de "fascista democrático". É um governo que agrega suas três vertentes principais: O de berço, europeu; o que herdamos da Casa Grande e os liames da onda mercadológica.
É um governo que se apresenta como negociador, mas é truculento e sempre que pode, usa a força com o argumento da eficiência em governar. Diz-se austero com os recursos públicos, mas não conta os milhões dispensados ao seu conforto e benefícios de grupos econômicos alvissareiros.
É um governo que valoriza ao extremo a burocracia. Exerce controle autocrático exacerbado. É egocêntrico e vive a defender, em discurso ou na regulamentação oficial, a disciplina integral. Não faltam posições, mais rigorosas em algumas instituições, de clara intimidação. Segue, à risca, uma das máximas do fascismo clássico: "Aqui não se faz política, mas se trabalha". Amiúde usa esse discurso para convencer os idiotas, pois só eles aceitam que a vida pública possa ser construída sem ação política.
Como todo fascista, costuma pregar uma coisa e fazer outra bem diferente. Governa para grupos, não para a sociedade em geral. Aquilo que é de interesse geral é, costumeiramente, negligenciado. É improvisador em algumas instituições públicas. Nessas prega o isolamento porque constrói um ambiente de tensão em nome da racionalidade e da impessoalidade. Em benefício dos grupos privados age de maneira eficiente, como também, segue a mesma linha para aparelhar as instituições que servem para protegê-lo.
Prega a democracia, mas desde que "as manifestações democráticas" estejam sob seu controle. Vide "Gestão Compartilhada" nas escolas públicas.
Com um discurso piegas, acena em busca de apoio popular irrestrito, embora seja uma retórica que carrega consigo data de validade. Por isso usa o "novo" e o "moderno" como álibi de sua propaganda oficial. No entanto, essa estratégia é mais para esconder os negócios escusos e a ineficiência na gestão pública.
Mas o Distrito Federal não está sob essa nuvem sozinho. Estão em sua companhia o Estado de São Paulo e do Rio Grande do Sul, além de vários municípios e, provavelmente, outros Estados de menor expressão. Se há diferenças nas gestões desses Estados, são na forma, não na substância.
Portanto, é fácil de percebermos que o "jeito novo de governar" dos gaúchos, o "trabalhando por você" dos paulistas e o "compromisso com o futuro" do governo Arruda são peças de um mesmo tapete. Um tapete feito com a arte da arrogância, do desprezo pelo espaço público e do discurso falacioso.
De suas políticas, sobrará o caos nos setores de ensino público, por exemplo. Aos sucessores, caso não sejam reeleitos, entregarão uma casa arrasada, com seus "habitantes" desestimulados e até desrespeitados e transgredidos em alguns de seus direitos fundamentais.
Em contrapartida, os setores privados baterão palmas, sairão agradecidos pelos favores e pelos lucros. E, quem sabe, municiados para a próxima eleição, mais uma que poderá mantê-los no poder ou eleger para os cargos novos "fascistas democráticos".
Nonato Menezes [1]
Professor da Rede Pública de Ensino Público do DF