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OS PROFESSORES, OS ECONOMISTAS E A REPROVAÇÃO ESCOLAR
NONATO MENEZES[1]

Em 2006, 5.145.421 alunos foram reprovados no ensino público básico brasileiro. Ao custo de R$ 1.440 aluno/ano em 2005, o prejuízo à Nação chegou a R$ 7.409.406.240. Um valor que daria para construir milhares de casas simples para os que sonham com um teto. Ou serviria para alimentar milhões que vivem com a pele colada nos ossos. Ajudaria muito também, na construção de escolas simples em substituição às choupanas e aos cubículos de zinco que recebem alunos por aí. Na casa Pátria é assim, até as autoridades sabem, há muito a ser feito com tanta grana como esta.

Enquanto dinheiro puro, o prejuízo à Nação é enorme. Com ele, todos nós perdemos. Até quem não nasceu ainda já contabiliza perdas. Terá uma vida de endividado.

Este número grandioso nos traz um dilema. Todos nós concordamos com os prejuízos sociais e individuais que dele resultam. Ao mesmo tempo não há uma discussão sequer para evitá-los.

À luz de nossas carências, esta perda deveria ser tema de pauta de nossos jornais. De manchetes de telejornais diários. Nos programas de auditório haveria de ter um "tantinho assim" de tempo para divulgá-lo, mesmo que não houvesse aplausos.  Só em divulgar já estaria bom.  

Nas emissoras de rádio, oficiais e piratas, ninguém fala a respeito. Seus bem informados comentaristas de economia e política - das oficiais - não abordam o assunto. Quem se arrisca a comentar indicadores educacionais, também se esquece deste tema. Assim, fica a impressão de ser algo menor, sem nenhuma importância. Algo que não merece ser notícia.

Nas escolas, nas universidades, no parlamento, nas legislativas estaduais e municipais, onde o debate deve ser parte integrante dos trabalhos, este tema passa alhures. Ali também, o prejuízo de mais de sete bi em apenas um ano, na escola e por causa dela não é assunto relevante.

Se nestes lugares não há o que se dizer a respeito deste assunto, presumo que também em outros a situação seja até pior. Não creio que nos cultos, nos bares ou nos coquetéis dos endinheirados haja tempo, espaço e interesse para tal conversa.

As perguntas são: Por que esse desinteresse por algo que causa tantos danos aos indivíduos e à sociedade em geral? Por que numa sociedade onde há tanta carência material, onde o atendimento à saúde é precário, o ensino é precário, a carga tributária é alta, um prejuízo dessa monta não provoca apreensão, não gera debate, não é notícia, não é "nada"?

Há de existir um ou mais motivos que amortecem ou escondem esta questão. Impossível acreditar que do nada, o silêncio sobre isto se revele mais importante do que seus danos. Não creio inexistir um ou mais aspectos que se revele responsável por esse ocultamento. Não creio ser este um assunto tão irrelevante a ponto de não ocupar sequer um décimo do tempo dos telejornais ou dos jornais diários destinados ao sobe e desce das bolsas de valores.

Talvez, entre vários motivos, um deles seja o desinteresse mesmo. Afinal, nossas prioridades são outras. O ensino com seus bônus e seus ônus, não faz parte das nossas preocupações. Entre tantos, este é um assunto menor. Ele não faz parte do nosso dia-a-dia.

Na seara dos conhecedores do assunto, ou de parte dele, os economistas seriam aqueles mais diretamente envolvidos com o tema; deles deveríamos esperar bons conselhos ou críticas veementes pelo mau uso do dinheiro público. Não o fazem porque a reprovação escolar não está nos manuais de economia. Por isso, os senhores dos números não devem e jamais terão tempo para se preocuparem com o que causa ou deixa de causar a reprovação na escola. Talvez eles até achem absurdo o valor empregado na reprovação, mas devem se omitir em dizerem algo por não entenderem a que águas navegam este componente da pedagogia. Na dúvida e com receio de serem contraditados, preferem o silêncio. Pela prudência e por desconhecerem elementos da Ciência da Educação, silenciam. Este assunto não é com eles.

O professor, porém, não se envolve com estes números, mesmo sendo um dos responsáveis por eles. Sua preocupação está relacionada a números, mas aos décimos usados para ajustar notas que aprovam ou reprovam os alunos. Não está ao seu alcance se preocupar ou discutir bilhões perdidos com a reprovação escolar. Para quem lida com décimos para ajustar notas, discutir bilhões é tão sem nexo quanto querer um elefante em laboratório escolar para estudo de seus batimentos cardíacos.

Nós, professores, nos preocupamos com a reprovação enquanto indicador que "comprova desempenho" ou como artifício disciplinar. A reprovação como produtora de danos individuais, sociais e econômicos, nossa escola não trabalha. Se a sociedade gasta ou deixa de gastar com a reprovação, não é da nossa conta, afinal estes números tão impressionantes não constam em nossos livros didáticos. Então, não conhecemos este assunto. Aqueles números não existem para nós.

Ainda que nos preocupássemos, nada teríamos a fazer, pois não entendemos de economia, pelo menos enquanto ciência.

Então fiquemos assim; nós professores não discutimos os sete bi de prejuízos causados com a reprovação na escola porque desconhecemos estes números e não entendemos de economia. Enquanto isso, os economistas sabem daqueles números, mas não discutem o prejuízo causado pela reprovação escolar porque não entendem de pedagogia. 

                Bom para todos nós, porque este é assunto de ninguém.

 

Nonato Menezes [1]

Professor da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal


11/06/2008

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