O humano não vive sem seu espaço físico, sem as coisas intrometidas na vida e na sua convivência diária. Por natureza, apreciamos ambientes limpos, bonitos, organizados pelo entendimento e sem o clima da suspeita. É assim nas nossas casas, nas repartições democráticas. É assim nos parques e até nos ambientes de competição. Mesmo em ambientes de disputa feroz, preparados para um espetáculo selvagem como o Box, a limpeza e a organização do espaço físico são necessários. O evento exige que seja assim. Só na escola pública, em geral, há desprestígio pelo espaço físico limpo, bonito, agradável, organizado pelo entendimento. E, ainda, há quem defenda que ele não é pedagógico, não ajuda na aprendizagem. O discurso no interior da escola, quando o assunto é espaço físico, vem sempre acompanhado da obrigação de preservar o que é público - quando acontece - sob pena de pagar pelo dano, de se submeter à lei.
Não há um discurso que aponte para a preservação ou melhoria do ambiente escolar para ajudar no humor das pessoas, nem para contribuir no conforto de quem nele trabalha ou estuda. Poucos o vêem como elemento que disciplina, que ajuda na harmonia das condutas humanas.
Pedagogos, psicólogos, orientadoras, professoras, pesquisadores, regra geral, não vêem o espaço físico como um indicador de qualidade da educação. Nunca vi um ensaio, seja acadêmico ou não, que trate desta questão. O espaço físico escolar é tão secundário no processo de ensino-aprendizagem que ninguém se arrisca a defendê-lo como indicador de qualidade educacional.
Ou ele é tão importante, inerente, indispensável no ambiente de ensinar que dispensa preocupação por ser tão óbvio. Ou, de tão insignificante, ninguém arrisque a ter seu tempo ocupado e suas energias desperdiçadas com algo menor, que não desperta interesse.
Dirigentes e envolvidos com a educação não percebem no espaço físico importância alguma para dinâmica escolar. Disciplina, por exemplo, está apenas no uso da palavra, no grito, no poder da autoridade e na burocracia. São apenas estes mecanismos, na visão de quem comanda os sistemas de ensino e do pensamento da maioria de quem nele vivencia, capazes de disciplinar a escola, de evitar a desordem. Mas os resultados desse equívoco já são visíveis e facilmente sentidos.
O medo que já sentimos na escola é uma constante. Ele se tornou um fiel companheiro. No interior das escolas e em seus arredores, sobretudo nas periferias das grandes cidades brasileiras, a violência já se instalou e cada dia que passa viver sem ser agredido passou a ser uma questão de sorte. Em poucas palavras; o ambiente escolar está cada dia mais caótico, mais embrutecido.
Como solução oferecida por nossas autoridades e, infelizmente, aceita por maioria que na escola está envolvida, são policiamento, mais burocracia e (agora na moda) vigilância constante das câmeras digitais. São estas alternativas que a burra tecnocracia nos oferece. Ela não consegue olhar dos lados, nem para trás, menos ainda, para frente. O que interessa é o imediato, é o espalhafatoso, é o "modernoso", mesmo que acompanhado de prejuízos, de ineficácia. E, muitas vezes, de corrupção.
Tem sido mais fácil o sistema disponibilizar um ou mais policiais para vigiarem a movimentação na escola, contratar um ou mais servidores para inspecionar, para cobrar procedimentos burocráticos, contratar e instalar instrumentos de vigilância, do que permitir que alguém da própria escola, preferencialmente quem goste de fazê-lo, ser destinado a cuidar do ambiente físico e valorizar seus aspectos de beleza estética. Alguém que juntamente com alunos, professores, servidores em geral e direção se encarreguem de cultivarem as flores, de regarem os jardins. Percebemos que cuidar das cores e da higiene nas escolas é desvio funcional, é usar indevidamente recurso público. Isso, para os pedagogos, para a maioria dos professores e, sem exceção, para os burocratas é desperdício de recurso econômico e humano.
A solução, para muitos, está no aparelho policial. É a polícia que resolverá todos os problemas de disciplina na escola. Ela será a redentora, será a nossa segurança, o que nos falta para a conquista do paraíso.
Para nossos tecnocratas não há solução além do aparelho policial, nem da burocracia, nem da vigilância constante. Como também, não há saídas que não sejam por suas intervenções arrogantes nos procedimentos escolares, pois somente a eles cabem arribar o condão da moralidade, a exercer o respeito ao que é público. A escola, neste regime de "casa grande", não tem o direito de opinar, de criar suas próprias alternativas, de ajudar a reconstruir o que, reiteradamente, nossos governos têm destruído. Como exemplo, entre várias unidades da federação, o Distrito Federal tem sido, nestes últimos dez anos, um apreciável laboratório de desconstrução do ensino. E o que é pior: Como política de governo.
Bem distante desse quadro assustador estaríamos se a escola tivesse a autonomia em sua gestão, se a tecnocracia não atrapalhasse tantos os seus procedimentos. A escola livre desses impedimentos seria perfeitamente capaz de encontrar caminhos que humanizem que comece a tirar a escola da condição de ambiente que já se tornou violento para um espaço a presenciar, eventualmente, atitudes violentas.
Não precisamos de polícia, nem de câmeras digitais vigilantes, nem dessa burra tecnocracia para cuidarmos dos filhos alheios e de nós mesmos nas escolas públicas. Precisamos sim, de autonomia para lidarmos com o que há de mais simples e necessário na vida humana: condições para dialogarmos, para cuidarmos do ambiente que é nosso, para fazermos dele um espaço que educa. Cuidar do espaço público físico e humano não é prerrogativa apenas de quem governa o país, de quem governa o Estado, de quem governa o Município. É nossa obrigação, é nossa necessidade. Não precisamos que alguém, seja do poder ou não, nos vigie, nos imponha ordem, nos faça perceber apenas o mundo da obediência.
Portanto, a saída desse ambiente de terror que virou boa parte de nossas escolas não é pela via da força, nem pelo caminho da eterna suspeita da nossa capacidade de lidar com os filhos alheios. A saída é pela construção de um ambiente humano, agregador que possa começar pelo "simples" embelezamento do ambiente físico; pela superação da brutal burocracia que tomou conta das nossas vidas escolares, da impessoalidade desse "idiotizante" ensino de massa, dessa estúpida intervenção de quem, por se sentir no poder, achar ser o dono da verdade, o único capaz de respeitar o que é público, de fazer valer o interesse do outro.
Autonomia das escolas para cuidarem dos mais simples aos seus mais complexos problemas não oferece risco à ordem institucional, nem retira poder de ninguém. Difícil é isso ser entendido por quem age como Senhor de Engenho. Por quem entende que as instituições públicas, em especial as escolas, são quintais de suas fazendas e, nós professores, seus domesticados agregados.
Por tudo isso a escola deixou de ser um ambiente como qualquer outro, sujeita a se deparar apenas com atitudes violentas. Hoje, nossa escola é a própria produtora da violência. Ela deixou de lado os procedimentos simples e se enveredou pelo labirinto das políticas públicas arrogantes, brutas. E com medo, se apega ao que lhe parecer mais ligeiro em seus resultados. Anseia pela presença policial, pela vigilância constante. Amplia a impessoalidade e não se rebela contar a burocracia sufocante. Estes indiscutíveis construtores de violência.
Nonato Menezes [1]
Professor da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal