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UM ENSINO MÉDIO MELHOR
NELSON MOREIRA*

                Nossos indicadores educacionais apontados pelas pesquisas feitas aqui e por organismos internacionais têm demonstrado que no ensino, em geral, e o Médio, em particular, não satisfazem as necessidades que a sociedade exige, seja do ponto de vista do progresso em seu sentido amplo, seja no sentido de organizar a sociedade em seus elementos constitutivos de humanização.

                Indicadores que em muitos países já foram melhorados ou até superados, aqui ainda perduram e produzem enormes prejuízos à sociedade, sejam prejuízos econômicos, sejam sócio-morais. Indicadores como evasão, repetência e outros fazem parte de um conjunto de fatores que vêm produzindo há anos um ensino de baixa qualidade e que nos leva a defender uma profunda reforma em todo o ensino, sobretudo, no ensino Médio.

                A baixa qualidade do nosso ensino como tem mostrado as pesquisas é inegável, como também, é inegável a insuficiência dos programas e das medidas adotadas pelos governos federais, estaduais e municipais. O que tem sido feito até agora em nada tem contribuído para a melhoria significativa dos nossos indicadores educacionais, como mostram os últimos dados de exames recentes feitos no Brasil.

                Acontece que os caminhos escolhidos pelos "estrategistas" do ensino brasileiro se esquecem, não sabemos se de propósito, ou se por negligência daquilo que qualquer sistema de Ensino tem por obrigação de levar em conta para que seus indicadores não fossem tão ruins ou, pelo menos, avançassem no sentido da qualidade que precisamos.

                O primeiro ponto que deveria ser considerado é o fato de numa sociedade como a nossa não ser aceitável um currículo único. Não é tolerável aceitar que crianças e jovens da classe média tenham o mesmo currículo que jovens e crianças de uma cidade do interior do Piauí que, como todos sabem, as necessidades e os interesses são completamente diversos. Isto significa que há urgência na mudança de nossa grade curricular.

                Não podemos conviver mais também, com gestões escolares orientadas e ou indicadas por tecnocratas com fortes ingerências políticas do momento, onde as direções escolares deixam de lado os interesses da comunidade a qual deveria servir para fazerem jus a interesses que quase sempre nada tem de educativo, no sentido escolar. Gestores tirados da própria comunidade escolar que soa tão mal para nossos dirigentes, hoje não há dúvidas quanto sua eficácia, haja vista, inúmeros exemplos daqui e de outros países que chegam até nós.

                Há também necessidade de serem revistos os procedimentos de contratação do profissional docente, afinal o professor é um profissional que, por sua natureza cria - ou deveria criar - vínculos com a comunidade a qual serve. O professor, por lidar diretamente com "valores" não ser aquele que de ano em ano troca seu ambiente de trabalho.

                É desnecessário dizer que um professor, como qualquer outro profissional qualificado, precise de remuneração compatível com suas necessidades básicas. Básicas no sentido também, do ambiente em que ele vivencia. É imprudente querer que um professor que more e atue em um grande centro urbano ganhe o mesmo que aquele que more e atue numa cidade de dois mil habitantes. Por vários motivos não é defensável esta comparação.  

                Outro indicador importante, cujo "esquecimento" é normal em nossos dirigentes e a relação professor/aluno.

                Por mais que nosso ensino seja dito "de massa", não é aceitável - os dados mostram isso - nossa relação professor/aluno ser à base de quase trinta e sete alunos por professor, enquanto na China, como a população que tem, a média é de 16,5 alunos por professor.

                Se este não é um indicador exclusivo, ele é determinante na qualidade do ensino. No entanto, nossos dirigentes é que não querem ver isso. Sobre este mesmo item é desnecessário até citar países que seus sistemas produzem ensino de qualidade, segundo dados de pesquisas internacionais como o PISA, por exemplo.

                É inegável que o nosso ensino é de baixo custo. Enquanto países como PIB dez vezes inferiores ao nosso, investem 9% dele em educação, nós não passamos de 3,5% por cento. E ainda há quem diga que se gasta muito com educação no Brasil, logo, necessário se faz deixar que a iniciativa privada assuma o papel de instruir e educar a sociedade.

                É também, necessário que seja revisto a grade curricular de graduação daqueles que primam pela docência, porque soa como imprudência um professor desconhecer quase que completamente uma ou mais das teorias pedagógicas existentes.

                Então, é perfeitamente possível termos um Ensino Médio de qualidade, desde que sejam considerados indicadores como estes, não de maneira isolada, como tem sido feito, mas de forma concomitante, haja vista, todos são determinantes no processo de ensino e aprendizagem, não são exclusivos.

                Portanto, é possível sim, um ensino melhor, sem que haja necessidade de se sonhar com o novo, com o inusitado, basta ser levado em consideração que nos parece óbvio, mas que entre nós tem parecido tão distante.

 

Nelson Moreira*

Professor da Rede Oficial de Ensino do Distrito Federal


26/04/2008

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