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PASCHOAL E BEZINHA
MÁRCIA GUEDES1

     

                                                                                             

                      O dia era um desses de fim de tarde seca que custam a passar e ninguém acredita que algo inesperado possa acontecer,... nem mesmo o leitor.  O sol ardia no céu longínquo e sem nuvens, demorando-se para descer a colina e morrer no descampado depois da igreja, onde termina o punhado de casas do bairro. A igrejinha repousa na sombra com a porta no poente, para onde os índios presumiam que a cidade deveria avançar.

 

                        Do lado oposto, está o paredão de serras, que resfriam as madrugadas e de onde, no inverno, cachoeiras despencam, zoando.  O colonizador, depois de destruir a missão e dizimar os Payayas, lembrados no letreiro do único cinema, ergueu a matriz, encostando-a no piemonte de pedras, sem deixar espaço para a cidade, que, asfixiada, subiu com avareza as serras, babatando o céu.

                       

                        À sombra da calçada da casa de Maria Dasdô, as mulheres, em prosa, bordavam.  Clarice fingindo não ver o olhar de reprovação da mãe esgueirava-se até juntar-se ao grupo e escutar a conversa das mulheres.  Falavam de Brasília, a cidade-monumento, de linhas sinuosas como as de uma mulher, traçada por Lúcio e Oscar e erguida pelos candangos.

 

                    A dona da calçada revelava os planos de seu marido de mudar-se para Brasília, virar candango e ganhar dinheiro na construção do muito que ainda havia para ser feito na cidade assentada no platô de Goiás e Mato Grosso.

                       

                        ___ Lá, sim, tem trabalho, e corre dinheiro __ dizia a mulher, abrindo um olho e fechando o outro, sem esconder um risinho de mofa no canto da boca.  Dasdô desdenhava dos planos de grandeza do marido, que sonhava ficar rico como seu pai, o velho João da Taboca Grande, fora um dia.

 

                        A menina lembrava-se da aflição que sentiu ao ver a foto dos candangos num pau-de-arara na revista que seu pai abria sobre a mesa, depois do jantar. Sentiu culpa dos bichos e dos índios desalojados!. Erguida no meio da selva, a cidade de cimento e concreto armado era o símbolo do poder, sem crianças brincando de roda  nas  ruas.

           

                        Pensativa, Clarice ergueu-se, e por cima dos telhados avistou a viúva, límpida e radiante, sem o costumeiro véu de neblina, e lembrou-se novamente do pai, sorriso largo, apressando todos para a alegre penitência ao cruzeiro na sexta-feira santa; para a festa  do  Bom Jesus na igrejinha dos índios;  para as feijoadas do domingo, sob o centenário oitizeiro,  e o banho  na Lagoa Grande.  Fechava os olhos, sentia o travo do araçá e o doce do cambuí  que ele trazia, colhidos no chapéu,  certa de que vivia no melhor dos mundos.

                       

                        A conversa das mulheres esmorecia com a tarde, quando, de repente, Clarice estremeceu ao ouvir sua mãe sussurrar:

 

                        ___ Maria, valei-me!

                       

                        Pousando de volta para a calçada, a menina seguiu o olhar das mulheres emudecidas, e  acompanhou a cena que adensava o ar,   enchendo-a  de angústia e medo. As crianças que borboleteavam alegremente, ao longo da rua, silenciaram e desapareceram puxadas pelas mães.

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[1] Juíza do Trabalho. Autora do livro Terror Psicológico no Trabalho.

 

 

                        Embaixo, na primeira quadra, um casal avançava, ele à frente carregava uma criança nos braços, ela o circundava tentando tomar a criança.  Circulava de um lado para outro, ora à frente, ora atrás, ora à esquerda, ora à direita, sem êxito. À medida que o casal se aproximava da calçada onde estava a menina sua angústia crescia. Com a língua seca, Clarice buscou uma proteção qualquer no olhar das mulheres,... mas elas  atracaram-se às agulhas e bastidores,  fingindo  apurar- se  na costura.

 

                        Envergonhada, a menina desistiu e concentrou-se na cena. O homem caminhava com passos firmes, os olhos fixos no horizonte, boca crispada, não dizia nada, apenas apertava com firmeza o menino contra o peito e afastava com cotoveladas a mulher, toda vez que ela se aproximava, impedindo  que ela lhe arrebatasse a criança  dos  braços.

 

                        A mulher defendia-se dos golpes e, cuidando para não machucar o pequeno, de uns oito meses, insistia, movimentava-se, trocando de lado,... para depois abrir os braços e pedir: ___ Vem com a mamãe, vem, meu filho...  O homem adiantava o passo, deixando-a para trás,... e, ela, frustrada,  implorava com raiva:

 

                        ___  Pelo amor de Deus, homem,  devolve meu filho.

 

                        As lágrimas escorriam-lhe sobre as bochechas rechonchudas da face de porcelana, corada pelo sol e resíduos de blush.   A boca, de lábios carnudos em forma de coração, acentuado pelos vestígios ainda visíveis do batom vermelho-cereja, ajudava a realçar o colo leitoso que o decote deixava à mostra.

 

                        A mulher levantava os braços como se fosse enfiar os dedos de  longas unhas recobertas de esmalte nos cabelos ruivos e  bem  cortados, mas desistia. Enxugava as lágrimas e assoava  o nariz num lencinho retirado do decote e suspirava desalentada. Olhando em torno, lançava uma súplica tímida aos circunstantes que não tiveram tempo de escapar e se desviavam encabulados:

 

                        ___ Alguém me ajude...  

 

                        Sem resposta, e vendo que o homem se afastava, ela apertava a marcha,  ondulando ligeiramente os quadris, alheando-se novamente do mundo, para insistir, implorar, e, outra vez, abrir os braços à espera de que a criança neles se lançasse. O pequeno fingia se entregar, mas recuava sorrindo, curvando-se e enterrando a cabeça no ombro do homem, que, percebendo a manobra, acelerava o passo, deixando-a com os braços perdidos no ar.

 

                        Arfando, ela vencia com dificuldade a rua de casas simples em cima da colina. A silhueta de curvas generosas contida num vestido de tafetá verde-esmeralda e os pés metidos num par de sapatos de salto desafiavam a poeira e as pedras da rua, que manchavam panturrilhas torneadas pelos saltos, e estragava o verniz e recheava o drama.

 

                        Agora, os atores se moviam com liberdade na rua semi-deserta,... mas de portas e janelas entreabertas  assomavam cabeças de olhares esbugalhados,... e mais tarde, soube-se  que do interior de algumas casas gretas e fechaduras de portas foram disputadas a tapas pelos sonsos, que tudo querem saber e nada testemunhar. 

 

                         O casal seguiu imperturbável com a peleja até sumir na esquina da Rua da Saudade.

 

                        Como Brasília, o mundo para Clarice era presente, estava apenas começando.  Ainda não conhecia o teatro. De Boal, então, nunca ouvira falar,... mas  gostava de acreditar que tinha participado de um drama de rua  em plena luz do dia, como aqueles que os atores de circo davam de noite, e ela, fingindo dormir, ouvia seus pais comentar.

 

                        O tempo se encarregou de revelar para a menina os bastidores daquela peça.  Aquela não era mais uma das tantas tertúlias de Paschoal e Bezinha, o casal que gostava de compartilhar com a cidade seus arquivos mais íntimos. Dessa vez, o assunto era sério e exigia juízo imparcial. 

           

                        Filha de uma família de brasões, que se orgulhava de ter chegado àquele lugar com o colonizador,... Bezinha largou os estudos e fugiu, vestida no uniforme do colégio, com Paschoal, herdeiro de um ex-chefe político atolado em dívidas com os bancos oficiais. 

 

                        Paschoal não aprendeu a trabalhar e o que ganhava com os aluguéis dos poucos imóveis, que restaram desembaraçados da penhora nos bancos, perdia no jogo de bilhar no Danúbio Azul e embriagando-se do melhor uísque escocês na companhia dos engenheiros da  Eldorado  S/A, que em breve comandaria a cidade. 

 

             Incentivado pelos novos amigos, Paschoal decidiu mudar-se para Brasília. Estava convencido de que sua habilidade no jogo era um pedigree para fazer fortuna como lobista no Planalto Central.

 

                        Acontece que Bezinha não queria nem ouvir falar em deixar sua família e seu lugar, onde tinha um nome e era bem conhecida, para viver na solidão e do anonimato. Para Paschoal, Bezinha era uma provinciana, que não ouvia o chamado da razão e da modernidade, e agia com o coração! Ao que ela lhe respondia, empregando Blaise pelo avesso: ___ "O coração, meu bem, tem razões que a própria razão desconhece".  

 

                        Para fazê-la mudar de idéia e lhe mostrar a força da razão, Paschoal raptou o próprio filho!

                       

                        O drama que ganhou as ruas e acabamos de assistir, começou com o seguinte diálogo:

 

                        ___ Dentro de pouco tempo estaremos ricos ___ dizia Paschoal vermelho de euforia.

 

                        ___ Qua!  __ resmungava Bezinha, e redargüia: ___ Sem o apoio da minha família,  a gente vai acabar   morando  numa  favela...

 

                        ___ Quê favela o quê, mulher!... a cidade é novinha em folha, acabou de ser inaugurada... ___ argumentava Paschoal.

                      


25/04/2008

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