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EDUCAÇÃO BRASILEIRA: SCHOPENHAUER ESTAVA CERTO
POR ALESSANDRO ELOY BRAGA*

"Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimentos e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes".

Outro dia, estava folheando novamente alguns livros e me deparei com um texto de Schopenhauer, intitulado A Arte de Escrever, traduzido por Pedro Süssekind, adaptado de uma obra maior, Parerga und Paralipomena, publicada pela primeira vez em 1851. Abri suas páginas e, logo na primeira parte do texto, "Sobre a erudição e os eruditos", no primeiro parágrafo, encontrei palavras que refletiam exatamente o panorama educacional que vivemos no Brasil, em especial em Brasília-DF. O trecho que li é este que transcrevi no parágrafo anterior. Não que eu tenha me surpreendido ao saber que em 1851 Schopenhauer já estava tecendo críticas tão severas à estrutura educacional européia. Parece-me, então, que o velho Nietzsche estava certo ao afirmar o "eterno retorno do mesmo", porque é isso a que assistimos na educação brasileira.

Não me interessa, no momento, se a educação européia e a norte-americana e a coreana e a chinesa e a japonesa também estão passando por isso ou se são diferentes desta que vivenciamos por aqui. Interessa-me, neste momento, pensar sobre que educação estamos experimentando em nosso país. E o mais interessante é que o que vemos em nossa realidade educacional, em sua maior parte, ao menos (não ocorramos no erro de generalizar demais), é exatamente o que Schopenhauer descreveu em 1851. Apenas com uma ou outra adaptação à nossa realidade: muitos de nossos professores não estão preocupados nem mais com o "crédito que ganham dando a impressão" de possuir sabedoria. Até porque a sabedoria está para poucos, muito poucos. Ou como dizia Rubem Alves, em seu livro Conversas com quem gosta de ensinar, poucos são os jequitibás, mas os eucaliptos espalham-se pela terra que há. Sabedoria é uma questão de espírito - como me disse uma grande amiga -, uma maturidade que se consegue sendo repleto de coisas para oferecer, ofertar por desejo de ajudar e ajudar para a vida tornar-se um pouco melhor. Sabedoria é honestidade intelectual, mas é mais... é simplicidade sem se perder a grandeza. Sabedoria não é voto de pobreza, é compromisso consigo mesmo e com os outros. É ter consciência perene de que sempre precisamos aprender com tudo e com todos, aceitando que jamais se atingirá o ápice do conhecimento. Pena que estas coisas são pouco faladas e vivenciadas em nossas escolas básicas e em nossas faculdades e universidades; apesar do que poderíamos supor.

Sim, temos acesso como nunca à informação, mas temos cada vez mais usado esta informação com o fim único de enriquecimento material, para o desenvolvimento industrial e tecnológico. A informação é a base para a sociedade da técnica. Esquecemos das questões humanas, porque estamos cegos pela técnica, pela necessidade de transformação de tudo em algo que tenha valor prático, abandonando a abstração, a reflexão sobre o conceito, a imaginação criadora livre, a subjetividade, a emoção, a sensibilidade e a poesia, para dar lugar à massificação, ao consumo e a transformação de tudo em valor de troca, inclusive o próprio ser humano, como afirmava Heidegger. Estamos numa caminhada secular e ainda mais acentuada rumo a uma pálida vacuidade, o egoísmo como centro de tudo: "minha satisfação pessoal, meu prazer, o resto que se dane".

Hoje, mais valor para a sociedade tem aquele que está "estudando para concurso" do que aquele que está cursando um curso de Letras ou Filosofia. Mais respeitado e valorizado o "concurseiro" do que um professor. Os concursos e seus preparatórios estão cheios de pessoas "estudando" para passar numa prova e receber o prêmio de ocupar um cargo público. Ocorre que, hoje, o que menos faz o servidor público é "servir ao público". Queremos ser "servidores públicos" pelos altos salários, pelos muitos benefícios e pela estabilidade. Quantos estão fazendo todos estes concursos, investindo rios de dinheiro em preparatórios, pensando em "servir ao público" ou fazer justiça em algum tribunal? É provável que "ninguém". Um diploma de ensino médio serve para aumentar o salário. Um diploma de ensino superior serve para aumentar o salário e quanto mais rápido e mais fácil for para conseguir tais diplomas, melhor então. É assim que pensa, provavelmente, a maioria dos jovens e adultos no Brasil. A educação não pode ser isso. A escola não pode servir só para isso. A escola não pode correr atrás dos fluxos destrutivos da coisificação da sociedade, ela precisa ser o espaço onde se pensa sobre tudo isso, onde pessoas se sensibilizam sobre tudo isso e onde se tornem capazes de corrigir os rumos da história. A escola precisa ser o lugar do livre pensamento, não um centro de formação de mão-de-obra, de seres amorfos, que fazem, mas não pensam no que fazem e porque fazem. E se as escolas cederam à secularização, onde encontraremos espaço para respirar a vida e fazê-la fluir por nossas veias?

Lembro-me novamente de Schopenhauer no mesmo texto A Arte de Escrever: "em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma [...]".

A qualidade de vida não deve vir do dinheiro que temos e dos bens que possuímos, não é do consumo que ela virá, mas de relações humanas mais humanizadas, mais responsáveis, mais sensíveis, mais reflexivas, mais espiritualizadas, numa quase harmonia entre pensamento e sentimento. A educação tem dois grandes agentes: o professor e o estudante. Tem ainda a educação um grande fim: ajudar a construir seres humanos melhores. O professor é aquele que desafia o estudante à maturidade, mostrando a ele caminhos possíveis para que ele, estudante, faça as escolhas. Mas, também tem o professor a responsabilidade e pegar pela mão o estudante quando este vai por caminhos que levarão à tragédia. O professor tem a função de ser aquele mais sábio que ajuda o educando a também tornar-se sábio, ensinando-o a pensar, propiciando a ele a fruição e o desenvolvimento da sensibilidade. O estudante é aquele que precisa ser desafiado a amadurecer por meio da leitura do mundo e dos textos, por meio da simplicidade, por meio da sensibilização, por meio do amor. Contudo, nossos professores não são sábios nem o querem ser, assim como nossos educandos também não querem. O que importa é se a escola fornece a eles diplomas e informações suficientes para que eles sejam capazes de ganhar dinheiro, para produzir mais dinheiro. Por isso, tanto se fala na escola sem o professor, apenas pelo contato com as máquinas e com acesso às informações. Porque para se tornar sábio é preciso um exemplo e nossa educação não pretende desenvolver sábios, apenas trabalhadores. E é a isso que estamos cada vez mais nos resumindo: ao nosso valor de troca no "mercado desumanizado do trabalho".

Todo esse quadro educacional não é apenas responsabilidade de grande parte de professores e de alunos que parecem inertes diante dessa realidade, ou das "tendências de mercado", mas também, e sobretudo, de nossas políticas educacionais que apenas servem a este mercado e que perpetuam uma história educacional frágil, problemática e que nunca responderam às necessidades educacionais brasileiras, senão apenas, e muito porcamente, aos anseios econômicos de muitos dos governos que tivemos e de classes historicamente dominantes. 

Ah, se todos lessem mais poesia e falassem sobre a poesia e aprendessem com a poesia, teríamos um mundo muito melhor. No entanto, fazemos da escola uma fábrica de trabalhadores, rasos de espírito e descartáveis se já ultrapassados. A única coisa que fazemos muito pouco é ajudar a desenvolver humanidade em cada pessoa. Por isso nossas escolas de ensino fundamental, médio e superior estão se tornando grandes cursos profissionalizantes. Para formar pessoas que tenham a cultura de ganhar dinheiro, para fazer girar a roda da fortuna, mas não alimentar a cultura de pensar.

"Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fossem apenas um meio", já nos dizia, em 1851, o velho Schopenhauer.

 

*Alessandro Eloy Braga

Licenciado em Letras e Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília; Professor de Literatura e Coordenador do Curso de Letras da Faculdade Jesus Maria José (FAJESU); Professor de Língua Portuguesa na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.


06/04/2008

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