"o silêncio é reacionário". Parece que foi Sartre quem usou esta expressão pela primeira vez. Usou talvez motivado pelas inquietações do momento em que viveu. Para quem abraçou o verbo como instrumento em favor da liberdade, a máxima tem um sentido singular, mas não vale para todos os instantes da vida política.
O silêncio pode ser uma boa e eficaz estratégia política. Se usado com parcimônia, é capaz de mudar o rumo das ações e alterar significativamente seus resultados. Fora da ação política, o silêncio pode ser um instante de purificação da alma ou um instante de rearranjo da razão, predicados que residem no ambiente da sabedoria.
Mas o silêncio reacionário é mesmo uma atitude política a ser considerada, sobretudo quando ela recai sobre um tema de relevância social. Silenciar diante de perdas econômicas consideráveis quando boa parte da sociedade abriga carências profundas, por exemplo, é uma atitude de sossego diante das agruras alheias. Se o silêncio, então, vem de pessoas que ocupam o poder político, mesmo daquelas que admitem entraves ao que presumivelmente almejem praticar, é um comportamento reacionário.
É reacionário, por exemplo, o comportamento da maioria dos ocupantes do poder político brasileiro diante das condições do nosso ensino público. É reacionário porque, os prejuízos dessas condições à sociedade são incomensuráveis, sejam eles de natureza econômica, sejam de caráter sócio-moral.
É tão reacionário este comportamento que ele acolhe a apatia, o desprezo e perpetra a inevitável violência causada pela indiferença. O silêncio reacionário anula a razão do ser no mundo e paralisa os mais virtuosos sentimentos humanos, por isso é tão danoso à vida social.
É reacionário, por exemplo, silenciar diante do fracasso escolar que temos produzido. Com enormes prejuízos que ele causa à sociedade não desperta nem interesse, nem indignação de pessoas que ocupam o poder, nem da maioria daqueles que estão diretamente envolvidos com os sistemas de ensino Brasil afora.
Não é menos reacionário tanta gente conviver com a falta de mais de 250 mil professores só para o ensino médio no Brasil. Número tão expressivo, numa área tão sensível e necessária que ao existir em outro país seria tratado como questão de Estado. Aqui, nem a Escola, nem a Academia se importam com isso.
É reacionário conviver com um prejuízo de mais 700 milhões de reais por ano só com a repetência escolar no Distrito Federal, sem sequer o poder público local atentar para programas responsáveis que possam eliminá-lo.
Dados da edição de 2002 da pesquisa World Education Indicators (WEI), realizada pela Unesco, revelam que o Brasil tem 35,6 estudantes por docente no nível secundário, a maior proporção entre 45 nações ricas ou em desenvolvimento que participaram da pesquisa. Na China, com a população que tem, esta relação é 16,4 alunos por docente.
Um indicador como este, importante na produção do fracasso escolar, nunca foi alvo de programas públicos, nem de discussões em lugar algum. Será se no lugar da confusão que isso poderia gerar, esconde-se o reacionário interesse do mercado?
É muitíssimo reacionário o silêncio diante da opção que vários Estados e municípios têm feitos pelo programa "educativo" da Fundação Roberto Marinho, quando deveríamos levar em conta o que deixou escrito Paulo Freire, Anísio Teixeira e tantos outros educadores brasileiros, com obras conhecidas aqui e em dezenas de outros países.
É reacionário o silêncio diante do avanço voraz do mercado interno sobre o ensino, ainda que sejamos responsáveis por um documento com a posição do Governo Federal, impedindo que nosso serviço de educação fosse entregue às corporações internacionais como continua querendo a OMC.
Mas, além do silêncio sobre indicadores educacionais tão importantes, é bom não nos esquecermos das estratégias políticas dos nossos governantes, presentes e pretéritos.
Quem já viu presidentes, governadores ou prefeitos definirem políticas para pôr fim ao analfabetismo adulto durante suas gestões? Longe disso. O que temos presenciado são discursos grotescos, como o de um candidato que, eufórico, afirmou, caso eleito, em pouco tempo acabaria com os analfabetos de sua região.
Nas nossas escolas o comportamento silencioso não é tão diferente. Reprovação, evasão, baixo rendimento; nada disso tem sido alvo de discussões em nossas escolas. Desconheço alguma escola, seja do ensino fundamental ou médio que tenha a reprovação na pauta de suas reuniões anuais. É tão ínfima a preocupação das escolas com a reprovação que, às vezes, parece não ser este um assunto para professores. Nunca vi, em início de ano, alguma direção de escola eleger a reprovação como assunto prioritário para nossos debates no decorrer do ano letivo. O mesmo ocorre com a evasão, com o baixo rendimento, com o currículo, com o programa e com outros temas de altíssima relevância para nosso setor.
No dia a dia de nossas escolas não há lugar para discussão destes problemas. Debate, quando é feito, restringe-se às banalidades, muitas vezes em tempo ínfimo, pois afinal, escola boa é aquela que mantém professores em sala de aula. Porque a discussão é perda de tempo; "o negócio é praticar"! Como se a prática se iluminasse por ela mesma. Significa que discussão mesmo, de bom nível, sobre questões relevantes, como as citadas acima, não é com a gente. "Teoria é bobagem". Já ouvi isto em uma escola. Bom mesmo para a educação é preencher diário, elaborar provas, corrigir provas, chegar na hora do sinal, sair na hora do sinal. Para muitos a reprovação, a evasão, o baixo rendimento, tudo isso é problema do sistema, da sociedade ou da chuva, do calor, menos nosso, dos nossos governantes. Apenas para o caso da reprovação já se encontrou um culpado: o aluno.
O fato é que nas escolas há um silêncio profundo a respeito dessas questões. Reprovação, evasão, baixo rendimento, grade curricular, programa, nada disso é com a gente. Sobre estes temas há um profundo silêncio nas escolas. E esse silêncio é também, reacionário.
Nonato Menezes
Professor da Rede De Ensino Público do DF