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UM DESPERTAR PARA A EDUCAÇÃO
POR ALESSANDRO ELOY BRAGA*

Não vou iniciar, como seria de costume, dizendo que sinto saudades do tempo em que se estudava de verdade nas escolas brasileiras, sejam públicas ou particulares, porque para mim este tempo nunca existiu. Talvez, um caso aqui, outro acolá, mas a verdade é que nunca desenvolvemos em nosso país a cultura de pensar; entendo que o pensar necessita estudo e o estudo necessita trabalho, que o trabalho pressupõe dedicação e que a dedicação pressupõe abdicar de alguns prazeres fugazes e efêmeros, que serão mais tarde recompensados com a maturidade intelectual e emocional que teremos desenvolvido e pelas relações civilizadas, honestas e respeitosas que experimentaremos e vivenciaremos em sociedade.

                O contexto educacional brasileiro, apesar de todas as nossas teorias pedagógicas, apesar das políticas públicas e programas e projetos para a educação, apesar de Paulo Freire e apesar das influências dos modelos educacionais de outros países, ainda não conseguiu atingir aquilo que seria o mínimo para uma educação verdadeira, capaz de contribuir de forma ascendente para o desenvolvimento de uma sociedade realmente organizada, de relações humanas civilizadas, com eqüidade social e indivíduos pensantes. Uma educação que não prepare exclusivamente, como parece se pretender a cada dia, para o trabalho, para a técnica, para a redução do indivíduo social a um reles trabalhador descartável em meio ao imoral "mercado de trabalho". Queria uma educação que realmente nos propiciasse uma vida, não uma sobrevivência.

                Tenho certeza de que muitos lerão este texto e dirão que eu não passo de uma pessoa utópica, que fala tais bobagens desconsiderando toda uma estrutura social mundial, baseada, atualmente, no processo de globalização econômica, na negociação arbitrária de interesses, na busca incansável e única pelo lucro, pelo capital, na necessidade doentia pelo progresso ilimitado, entre outras coisas. Desculpem-me estes, que talvez estejam certos e eu é que estou enlouquecendo, e não passo de um alienado ou algo do gênero. Todavia, estou falando aqui não de uma utopia, mas de uma realidade possível, mesmo considerando o mundo globalizado, porque mesmo em meio à globalização é possível ser digno. Falo disto: uma educação humanizada, que não descarta a preparação para o trabalho, porém apenas não vê nesta pedagogia tecnicista a que estamos retornando, tal qual nos anos 70 e 80, o fim único do processo de ensino-aprendizagem que podemos oferecer a todos.

                Pensemos: para que serve, hoje, nosso ensino fundamental? Para que serve nosso Ensino Médio? Para que serve nosso Ensino Superior? Se a maior parte de nossos educandos termina o Ensino Fundamental sem saber o que são relações humanas, o que é respeito, o que é responsabilidade, o que são valores, como ler as coisas do mundo, como ler um livro, como ler um jornal, como pensar criticamente, como ter relações humanas humanizadas, o que é amor, o que é paz, o que é o próximo, o que é espiritualidade, o que é dignidade, o que é... Se a maior parte de nossos educandos termina o Ensino Médio sem saber o que é o conhecimento filosófico, o que é o conhecimento científico, o que é o conhecimento teológico, o que é arte, o que é sociedade, o que é civilidade, o que é cidadania, o que é companheirismo, o que é respeito, o que é caráter, o que é ética, o que é educação, o que é estudar, o que é apreciar algo, o que é fruição, o que é hedonismo, o que é liberdade e como vivenciá-la no cotidiano de uma vida em sociedade, qual o valor dos conteúdos estudados na escola, como ler um livro, como ler um jornal, como ler o mundo, como pensar de forma autônoma, como construir um argumento, como problematizar, como discutir um problema, como redigir um texto coeso e coerente, como... Se a maior parte de nossos educandos do Ensino Superior terminam seus cursos sem saber o que é Filosofia e para que serve, o que é Sociologia e para que serve, o que é ética e para que serve, o que é arte e para que serve, o que é respeito, o que é liberdade e como vivenciá-la no dia-a-dia em sociedade, como estudar, como e para que pesquisar, como usar o que se aprendeu para o bem de todos e não apenas para a própria sobrevivência, o que é coletividade, o que é cidadania, o que é civilidade, o que é direito e o que é dever, o que é integridade, o que é dignidade, o que é...

                Sabemos operar um computador, mas não sabemos dizer obrigado. Sabemos ganhar dinheiro, mas ainda alimentamos preconceitos de raça e de credo. Sabemos apertar parafusos e soldar fios, mas não sabemos dar a vez ao próximo quando necessário. Sabemos lutar pelo próprio salário, mas nunca saímos às ruas pacificamente exigindo escolas públicas de qualidade e educação verdadeira. Queremos que nos dêem a vez, mas ainda não conseguimos fazer silêncio para ouvir o outro. Sabemos ver TV e tomar conhecimento da vida dos outros, mas não conseguimos perceber o que estamos fazendo de nossa própria vida. Vamos às urnas votar, mas continuamos escolhendo apenas entre a grande parte da escória de políticos que defendem somente os seus próprios interesses. Sabemos que temos vida, mas continuamos indiferentes ao valor dela. Sabemos do crime organizado, mas continuamos comprando CDs e DVDs piratas, drogas ilícitas e não exigindo a nota fiscal. Sabemos tanto e ainda permitimos tudo isso a que assistimos nos jornais e nos semáforos e nas calçadas e no tráfego e na escola e nas instituições governamentais e em nossa casa e entre nossos filhos...

                Se sistemas avaliativos como o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP) apresentam resultados como 59,7% dos estudantes abaixo do adequado ao final da 4ª série em Língua Portuguesa e, ainda pior, 78,8% apresentando desempenho abaixo do adequado ao final da 3º série do Ensino Médio neste mesmo componente curricular. Ou se o desempenho em Matemática, neste mesmo SARESP, apresentou 95,7% dos estudantes paulistas está abaixo do adequado. Se na 4ª série, o número de estudantes com desempenho abaixo do esperado, neste mesmo componente curricular, foi de 80,9%, enquanto que na 6ª série, o resultado abaixo do adequado foi de 78,1% e, na 8ª, de 94,6%. O que a população brasileira, os intelectuais, os pais, os professores, os doutores, os mestres, as universidades, os tribunais, a Presidência da República, o Congresso Nacional, os governadores e prefeitos ou quem quer que seja está fazendo a respeito disso? Não, nossa escola não começou ontem. Nossos pedagogos não apareceram ontem. Nosso poder constituído não apareceu ontem. Paulo Freire não apareceu ontem. Eu e você não aparecemos ontem. E o que estamos fazendo?

Afinal, se da 4ª série do Ensino Fundamental para a 3ª série do Ensino Médio os resultados entre aqueles que estão abaixo do adequado em rendimento no componente curricular de Matemática saltou de 80,9% para 95,7%, o que então a nossa escola está fazendo? Tornando nossos estudantes ainda mais ignorantes do que já estavam? E se em São Paulo, estado considerado o mais rico e mais produtivo do Brasil, a realidade é essa, o que esperar do Acre? E do Amapá? E do Piauí? E de Roraima?

Não, não sou alguém que vive de utopias. Sou alguém que não consegue mais aceitar a mediocridade da sociedade brasileira. Alguém que não consegue mais fechar os olhos para o buraco onde temos nos afundado ano a ano. Alguém que não consegue mais sobreviver em meio ao descaso, à corrupção, à ignorância, à irresponsabilidade, à alienação. Eu não voto em mais ninguém, nesta eternização do pântano do poder constituído brasileiro, porque sempre são os mesmos abutres que querem comer dos "podres poderes". Mudam as siglas partidárias, mas os discursos e as ações ainda são as mesmas do início da colonização.

Não precisamos de tapa-buracos ou de soluções paliativas para a Educação e, conseqüentemente para o caos em que sempre viveu a sociedade brasileira. Precisamos de discussões sérias e sinceras e livres de interesses corporativos. Precisamos de soluções de curto, médio e longo prazos. Precisamos de integridade, de civilidade, de cidadania, de coletividade, de compromisso com os deveres e responsabilidade com os direitos. Precisamos ser uma nação e não "um ajuntamento". Porque "uma coisa é um país, outra um fingimento", como bem disse o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, em seu poema "Que país é este?", que, apesar da notoriedade do autor e do texto ter sido republicado no livro Os cem melhores poetas brasileiros do século, editado pela Geração Editorial, em 2001, acredito que 90% de nossos professores de Língua Portuguesa não o conhecem. O que dizer de nossos educandos, então? E esta é a realidade da educação brasileira.

Quanto a mim, eu estou escrevendo e falando sobre tudo isso a vocês. Tentando despertá-los para a nossa história, para nossa realidade educacional e social. Não para que tenham conhecimento do fato, porque isso eu sei que vocês têm, mas para que façam alguma coisa. Como vocês conseguem sobreviver em meio a tudo isso e se preocuparem apenas com o valor do salário no fim do mês e se o auxílio transporte está ou não sendo pago na data estipulada. Porque eu só concebo uma nação verdadeira a partir de uma estrutura educacional responsável.

Eu estou escrevendo a vocês e dizendo tudo isso a vocês. E vocês, o que estão fazendo? E o que juntos vamos fazer sobre nossa (des)educação?

 

 

*Alessandro Eloy Braga

Licenciado em Letras e Mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília; Professor de Literatura e Coordenador do Curso de Letras da Faculdade Jesus Maria José (FAJESU); Professor de Língua Portuguesa na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal.


30/03/2008

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