NA FRONTEIRA DA BANALIDADE
Faz tempo que nosso ensino dá sinais de fracassado. É fracasso nos programas, nas metodologias, na gestão, em tudo que requeira uma política pública responsável e de longo prazo para o setor. Nas pesquisas nacionais e internacionais nossos indicadores educacionais estão sempre numa escala de nível muito baixo em comparação a outros países, sejam mais desenvolvidos ou não.
Mas não parece ser este o problema que possa inquietar nossas autoridades, nem que venha chamar atenção dos seguimentos que estejam diretamente envolvidos com o ensino. Ao contrário, mais que silêncio há uma cumplicidade e por pouco não ouvimos aplausos a reverenciar o nosso goro.
Isso, porém, não impede de aparecerem fatos inquietantes, não por suas justezas de propósito, mas pelo grau de comicidade que eles apresentam.
Já cessou o alarido da mídia sobre um caso recente que envolveu uma criança de oito anos ao ter passado no vestibular de uma faculdade privada. Foram muitas linhas escritas e muitos comentários feitos, mas apenas mostraram mais uma vez como não se deve discutir educação no Brasil.
Dos comentários estapafúrdios de membros do governo, às explicações vagas de cronistas deslumbrados com o nosso fracasso educacional, uma idéia sequer pôde ser extraída para ser usada como ponto de partida de um debate sério sobre nossa educação.
Houve muitas críticas, ameaças de investigações, demonstração clara de corporativismo e atitudes que nos fez lembrar Pilatos.
O fato parece já ter perdido a graça, mas nenhuma manifestação foi dirigida ao cerne do problema. Parece mesmo que estamos fadados a contemplar por mais algumas décadas a nossa ruína. Ou, se a sorte estiver ao nosso favor, que nos apareça mais uma criança e nos mostre como ridicularizar um dos mais importantes setores da vida nacional.
Houve algumas manifestações institucionais também. A OAB, o MEC e o MPF foram as mais importantes. Até a Polícia Federal se interessou pelo caso e mais uma vez deixou claro que nosso ensino é mesmo um caso de polícia, sobretudo o privado.
A reação da OAB não seria a mesma se o garoto tivesse sido aprovado para um curso de Filosofia, de História ou para outro qualquer. Tanto não seria como não foi por ocasião de um analfabeto ter sido aprovado no vestibular numa faculdade privada no Rio de Janeiro anos atrás. No caso de Goiânia a Instituição se sentiu ferida porque o garoto queria ser um advogado. E para tal teria que passar, necessariamente, pelo exame da Ordem. Assim viria mostrar o que muitos já sabem que é amplo o limite da desordem.
O MEC por pouco não imitou Pilatos. Não o fez por ter se sentido na obrigação de prestar algum esclarecimento ao distinto público, pois não ficaria bem demonstrar que nada pode fazer contra o setor privado. Mesmo se quisesse nada faria contra uma empresa comercial que tem a função apenas de comprar e vender. Comprar o que interessa e vender o que dá lucro. O MEC pode fazer algo contra isso? No máximo exibir provas para aferir o grau de aprendizagem. Ou alguém imaginou que o Ministério poderia cassar o credenciamento da empresa por um fato que todos sabem ser tão corriqueiro?
O MPF também se mostrou inquieto, mas tudo não passou de jogo de cena. O que mesmo o Ministério Público iria denunciar? Que a faculdade cobrou inscrição do vestibular, essa mercadoria proibida a venda para menores? Ou porque o garoto foi atrevido o suficiente e desmoralizou mais ainda o exame, esse ícone da classe média brasileira?
Pareceu mesmo ter o MPF se posicionado em defesa do vestibular, esta instituição abominável, mas que serve como divisor social.
Como uma das linhas divisórias da sociedade, o vestibular tem permitido passagem de apenas dez por cento dos estudantes que saem do ensino médio. Defendê-lo ainda é necessário porque o vestibular exerce a função de separar os que podem dos que não podem; "os que sabem dos que não sabem". Agora, com sua ruína exposta, qualquer um passa, assim deixou de ser um marco da euforia, da sensação do "eu sou melhor"! Então, no quesito vestibular, a classe média se vê desamparada, afinal não comemora mais sozinha seu momento de vitória, nem se sente mais a única a demonstrar sua arrogância nos trotes.
Como vimos esse acontecimento não representou nem o começo nem o fim de nossa paródia. Ele veio para se somar a tantos outros que em nada contribuem para fazer despertar o senso de responsabilidade daqueles que estão no exercício do poder, os verdadeiros responsáveis por essa fantasia que é o nosso ensino.
De certo, ele veio mesmo como mais um acontecimento para provocar risos, para dá ritmo à platéia que se abriga no limite das nossas banalidades.
Salve-se a criança que levou a sério por ter criado uma situação, de certa maneira, embaraçosa para nosso ensino e para outras instituições, daí se fez por merecer tornar-se um dos nossos heróis.
*Nonato Menezes
Professor de Ensino Médio no Distrito Federal