Uma das "cobras" de Fernando Veríssimo [Terramagazine, 15/12] diz para a outra: o "Espírito de Natal está pedindo esmola!" Num mundo em que a condição humana foi cindida entre os "de dentro" e os "de fora", dificilmente, Jesus Cristo, imigrante pobre e refugiado político, teria encontrado um estábulo e uma manjedoura para fazer sua aparição.
Terramagazine [17/03] revelou as imagens da insólita exposição, em Roma, do artista plástico Ha Schult, feita de figuras "humanas" e lixo descartável, entendida tanto como uma alusão à sandice consumista, que faz o planeta agonizar, quanto à transformação do ser humano em supérfluo, que não tem um lugar no mundo.
O consumismo cresce proporcionalmente à indiferença para com o Outro. Brasileiros gastam 5 horas diárias para trocar recados e xeretar a vida alheia no orkut [Folha On Line, 17/12], nesse ritmo acabaremos todos unidos por uma única "mente coletiva" que dita desejos, gostos, repulsa e ódio. Mas tem gente afirmando que todo e qualquer ataque ao consumismo cheira a elitismo saudosista. Que engano! No mais novo templo do consumo inaugurado na cidade do Salvador, os negros, maioria da população daquela cidade, aparecem trabalhando na segurança e limpeza e não estão entre a aparente avalanche de "felizes" consumidores.
Italo Calvino indaga se a verdadeira paixão dos moradores de "Leônia" é consumir e gozar coisas novas e diferentes ou expelir, limpar-se de uma impureza recorrente, sem se interessar onde o carro-do-lixo despeja sua carga. Entre os séculos XIX e XX, a Europa despejava nas colônias e nos países atrasados seu "rejeito" humano. Em um quarto de século, a Itália se livrou de 60 milhões de pobres. Mas, hoje, os aterros sanitários do planeta estão explodindo e não há mais a "terra de ninguém" onde lançar a população sobrante.
O consumismo e a perda da razão social do trabalho estão intimamente ligados. A lógica que orienta a redução de custos e qualidade e ergue montanhas de lixo também reduz pessoas à condição semelhante à de escravo, explora o trabalho infantil e viola as normas de saúde e segurança. A Nike fabrica sua mercadoria na Indonésia, empregando mulheres que trabalham cerca de 60 horas semanais e recebem 38 dólares. Em Bangladesh os megastores Wall-Mart, K-Mart e Sears empregam a mão-de-obra feminina na confecção de roupas com igual jornada e salários de 30 dólares.
Na Europa, mesmo para os de "de dentro" não há o que celebrar: as empresas transferem seu trend-set para a Romênia, onde se produz a 0,60 centavos de euros/hora; a maioria dos jovens está ocupada nos serviços terceirizados e recebem 5 mil euros/ano. O contrato precário não permite fazer o mútuo para a casa própria; compram carros usados e desfilam com a contrafação de Prada e Louis Vuitton, que imigrantes vendem nas ruas e praças das cidades mais desejadas.
A brutalidade do trabalho obriga homens e mulheres a competir com a máquina. À medida que o agronegócio canavieiro se transforma numa matriz energética, jovens nordestino entre 18 e 30 anos trabalham num ritmo alucinante imposto pela máquina colheitadeira. Como os salários estão atrelados à produção, "operam" no limite, realizando 9,7 mil movimentos para cortar de 10 a 15 toneladas de cana/dia. Isso é o dobro de 30 anos atrás, observa o economista Beto Novaes [Carta Capital, 26/09/07]. Para aliviar as dores tomam analgésicos por conta própria e as empresas dão doses diárias de vitaminas e hidroeletrolíticos para evitar as cãibras. Os acidentes de trabalho com perda total ou parcial de membros, são freqüentes, e há notícias de "listas negras" para impedir a contratação dos conterrâneos daqueles que reclamam na Justiça do Trabalho.
Em Salto [SP], a francesa Audilab _ Calibração de Produtos Audiológicos foi condenada por danos morais por não conceder licença para uma trabalhadora urinar. A moça urinou na roupa e, nesse estado, foi levada ao DRH, onde assinou a própria demissão. Na sentença, a Juíza Luciana Caplan ressaltou que "a empresa não negou o tipo de tratamento dispensado a seu pessoal e pretendia provar [sic] a 'necessidade' de a vítima permanecer operando a máquina a despeito da condição física a fim de não prejudicar a produção!" Esse caso revela um aspecto do choque entre a racionalidade totalitária do modelo de produção just-in-time __cujo relógio é o da mais-valia universal __ e as exigências humanas do cotidiano.
O sofrimento no trabalho aumenta com a guerra de guerrilha empregada como estratégia de produção e marketing por certas empresas. De acordo com a socióloga Petilda Vasquez, o polo calçadístico que se instalou na Bahia pratica a exploração intensiva do trabalho feminino, emprega um modelo perverso de gestão que tanto provoca quanto oculta os acidentes e doenças ocupacionais. Lépidas, essas empresas mudam de cidade, deixando para trás um contingente de mulheres com graves lesões físicas e psíquicas.
Envergonhado, o Espírito de Natal se escondeu diante das comemorações do IDH brasileiro. Por uma artimanha da FGV, que fixou em 125 reais o valor mínimo que uma família deve receber para sair da linha de miséria, reduzimos nossa população de indigentes, dos 36,1 milhões de indivíduos para 19 milhões! Por esse critério, a pobreza recuou em 28%, mas o Brasil segue sendo um dos países mais desigual do mundo. O Dieese calcula que uma família de quatro pessoas, para viver com dignidade, tem que receber, no mínimo, 1.700,00 reais, o que implicaria no cumprimento do inciso IV do artigo 7o da Constituição.
A ONU diagnosticou a morte de algumas nações. A Áustria é a primeira da fila que agoniza exangue de natalidade e miscigenação. Dominada pelo "medo oficial", depois do "11 de setembro", a Europa "Cristã" se fecha, negando o direito de asilo político e humanitário ao estrangeiro, portador da "boa nova". O Espírito de Natal não tem chance na medida em que a humanidade nada vê de sagrado na "nudez" humana. e a pobreza deixa de ser um problema de natureza moral e volta a ser um caso de polícia.
A categoria central do pensamento político está na natalidade e não na morte. A cada nascimento de um novo ser humano __ dizia Hannah Arendt __ se enrique o repertório de possibilidades e se ampliam as perspectivas de que a vida no planeta seja reinventada de modo, quem sabe, mais feliz. Essa noção de pluralidade é reafirmada pelo poeta João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina, que é um Auto de Natal pernambucano.
A globalização rompeu com o processo de evolução ética experimentado pela humanidade ao longo dos séculos. O neoliberalismo se revela eficaz para agregar valor ao capital, mas ineficaz para reproduzir a vida de suas vítimas. Rebaixar o ser humano a mero consumidor é negar a pluralidade, a "conditio per quam" de toda ação política. A natalidade torna-se possível com a centralidade do trabalho vivo, con-criador dos seres e das coisas e dá sentido ao que chamamos de Espírito de Natal.
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