Ainda no primeiro grau me fizeram decorar todas as preposições e por incrível que possa parecer, ainda não esqueci, mas até hoje não entendi para que servem. Ouvi tanto falarem sobre os adjuntos adverbiais de lugar e de tempo, mas até agora não entendi se um dia viriam a me ajudar respirar. Foram tantas as cobranças nas provas sobre as conjunções, algumas que nem o nome eu lembro mais, mas até hoje não entendi se ao decorá-las estaria livre de algum acidente. Sobre os artigos também fui obrigado a decorá-los, todos os definidos e indefinidos e até hoje não entendi se é mais ou menos gostoso viver com ou sem um deles. Dos verbos não tenho boas lembranças, citaram muitos, de boa parte deles me obrigaram decorar o tempo, o modo e a pessoa com a recomendação que eu jamais poderia esquecer se eram regulares, irregulares, auxiliares, defectivos, transitivos diretos, transitivos indiretos, transitivos diretos e indiretos e ainda se estavam na voz passiva, ativa ou reflexiva. Não decorei uma classe gramatical sequer, mas sei que não me ajudaram a ler e escrever pior ou melhor. Falaram-me muito sobre aposto e o que não esqueci é que, no geral, usa-se entre vírgulas, nada mais. Ter decorado ou não esta regra em nada alterou a minha ignorância. Insistiram para que eu nunca esquecesse palavras invariáveis como advérbio e interjeição. Ah, como sou esquecido! Quando escrevo uma frase nem sei se elas estão ali presentes. Para que servem mesmo? Fui obrigado a conviver um bom tempo com termos esquisitos, chamados de homônimos homógrafos e homônimos homófonos. Credo! Onde usamos isto? Insistiram para que eu jamais esquecesse os predicados, os vocativos, os numerais, os adjetivos, os pronomes, os substantivos, as orações subordinadas adjetivas e adverbiais, as orações coordenadas, as orações reduzidas, a concordância nominal e a concordância verbal, a regência e a colocação pronominal. Esqueceram de me avisar que um dia, apesar da gramática ensinada na escola, eu viria escrever algo assim como muitos, acessível, compreensível, sem precisar me subordinar a ela. Esqueceram também de me avisar (por inocência não percebi), que a maior parte da gramática é desnecessária para se fazer uma boa leitura ou para se escrever razoavelmente bem. A propósito, será que os gramáticos e os gramatiqueiros lêem Vidas Secas ou Dom Casmurro, preocupados com as orações coordenadas sindéticas adversativas contidas na obra? Será que os bons escritores se preocupam em reservar lugar para os parônimos? Será que nós, pobres leitores, precisamos dessas coisas para escrever o suficiente de maneira que sejamos entendidos e/ou compreendidos? Ou será que a opção à leitura e à escrita nas escolas no lugar da gramatiquice não abriria um caminho bem mais honesto e seguro para a melhoria de nosso ensino, haja vista o domínio da língua, não necessariamente da gramática, ser fundamental para a aprendizagem? E não estariam os pressupostos do conhecimento humano no domínio da linguagem, começando pelo domínio da língua? E a gramática na escola leva ao conhecimento, à sabedoria? Ou simplesmente confunde a todos com suas regras e suas exceções? Ensinar a ler e escrever no lugar de afogar os alunos nessas bobagens não seria bem mais gratificante para o professor e para vida de todos, para o dia-a-dia das pessoas? Por que as escolas continuam a insistir com a gramática no momento escolar em que as crianças e os adolescentes mais precisam de leitura e de aprender a escrever? Não parece bem mais simples ensinar sem gramaticar?
Por último, será que as idéias expostas acima são tão desprovidas de clareza, de organização e de coerência por faltar ao autor "conhecimentos básicos" das regras gramaticais por tanto tempo, impingidas a ele? Será que o autor saberia localizar, neste texto, todas as orações reduzidas, as orações subordinadas e os homônimos? Será que há estas coisas nesta página?
*Nonato Menezes
Professor da Rede Pública de ensino do DF