Pular Links de Navegação
Home
Quem Somos
Legislação
Dinheiro do Ensino
Contato
     Voltar
ESCOLA E DESINTERESSE
*NONATO MENEZES

A escola é uma instituição ímpar. A atmosfera que envolve seu interior é diferente nas outras instituições. Sua dinâmica vai do objetivo jeito de administrar as coisas ao mais subjetivo comportar-se de uma criança. Seu "rito de passagem" impõe uma dinâmica que nenhuma outra instituição tem. Ela socializa, tira muita gente da cegueira do analfabetismo, amplia a visão de mundo, constrói e 'ajusta' valores. É uma instituição de inestimável valor social, mas severamente criticada e talvez ainda, pouco compreendida.

Mas a escola também desvirtua a vida, produz o feio, acalenta o ridículo. Isso deve ser um de tantos elementos da sua inerente constelação de contradições. Viva a Escola!

            Não é aceitável, por exemplo, que alguém, depois de vários anos como estudante, passe a detestar Matemática. Como podemos detestar algo intrínseco à vida, tão presente, tão útil? É possível repudiar o que está agregado à existência humana, através do tempo e do espaço?

O detestar é um valor adquirido pelas circunstâncias e nesse caso só pode ter parte de sua origem na escola. A escola deve ter muito a ver com isso. O que e como, exatamente, não saberia dizer, mas que tem, tem.

Como é possível não suportar os cálculos, os números mais simples, a contagem do tempo, a noção do espaço pensado e usado no dia-a-dia? Aqui há algo de errado e a escola deveria ter o que dizer sobre a sua responsabilidade nisso.

            Com a História, a Geografia e as Ciências acontecem as mesmas coisas. Há uma similaridade entre elas e o desencanto de muitos é inegável, mas normal como o amanhecer.

O sujeito que diz desprezar a História é aquele que também acalenta o seu passado. Ninguém consegue atear fogo aos seus momentos de infância ou de adolescência só porque não gosta da História dada na escola. Uma e outra são elementos de um mesmo mundo. Um mundo onde cada um é sujeito da História. A diferença estar na dimensão, não no essencial dos movimentos históricos. Portanto, o ato de gostar ou não gostar de História se abriga na forma e na circunstância de lidar com ela. Onde e como há envolvimento com ela é o contexto que define o gosto ou a aflição. Logo, a escola é parte nesse mundo que ajusta e define valores, inclusive de não se suportar História. "Recordar é viver".

Com a Geografia o desatino é o mesmo. É fugaz o argumento que não dá importância ao espaço que habitamos, que cuidamos, que vivemos e morremos. Zombar da importância dos movimentos migratórios, da produção e distribuição dos alimentos é o mesmo que tolerar o desprezo pela dinâmica que nos faz sujeito de cultura, de relacionamento, de interdependência. Assim, declinar da importância da Geografia se assemelha a não levar em conta o espaço onde os vivos se ajuntam e os mortos subjazem. Como pode a escola ajudar nisso?

            O desprezo às Ciências, em geral, é uma asneira. Em particular, é um tanto de insulto. Negar a tentativa de compreender o mundo natural e humano, sob qualquer pretexto é, no mínimo, o mesmo que aceitar o valor da ignorância. Aqui a ignorância se manifesta no essencial do Ser, não é apenas produto de uma circunstância.

            Acontece que a escola, com uma impressionante facilidade, ajuda muitos a desprezarem as Ciências. É possível que ela reconheça isso, mesmo assim mantêm-se num preocupante silêncio. Inquietante, porque, afinal, um dos elementos que sustentam a escola enquanto instituição social é seu envolvimento com o estudo das Ciências. Aliás, pode até ser um erro, mas a escola tem estado, precariamente, mais envolvida com as ciências do que com a cultura. Daí não é aceitável mitigar a importância que as Ciências têm para com a vida humana.

            Portanto, alguém dizer que detesta Química, Física ou Biologia o faz por imprecisa atenção ao útil. Desatenção que aponta para um inegável desfecho de uma aprendizagem que confere o desprezo às Ciências. Tudo parece tão claro e evidente, mas a escola consegue, no percurso do ensinar, construir um simulacro de conhecimento com enorme reserva de indigência teórica e nenhuma atitude prática.

            Com Filosofia, Sociologia e Educação Física acontece o mesmo. Muito comum se chegar numa sala de aula e ouvir a pergunta: professor, para que serve Filosofia? Claro que a pergunta não é feita pela necessidade de esclarecimento, muito menos por desejar que o indagado seja surpreendido com uma pergunta inusitada, mas por puro desinteresse. É a falta de sentido que muitos vêem na Filosofia. Tentar compreender o mundo, inquietar a ignorância ou simplesmente "amar o saber", parece não ter importância para a vida, para nossos relacionamentos.

            Pois a escola consegue, com certa frieza, incutir em muitos o desinteresse pelos saberes, sobretudo naqueles que tendem a ver o mundo apenas do ponto de vista da utilidade, do palpável. Os saberes que, por sua natureza, são usados para aguçarem os sentidos ou exigirem do intelecto destreza para a descoberta são, regra geral, minimizados e ocupam a reserva das "ferramentas" do mundo produtivo.

            De todos os desinteresses que a escola ajuda a produzir, não gostar de Língua Portuguesa é o que mais impressiona, mais inquieta, sobretudo porque sem o uso da Língua não há domínio das Ciências, da Filosofia, nem convivência com a Cultura. Desgostar da Língua é desarrimar o Viver. Não cabe, sob qualquer justificativa, desapreço ao que estrutura a nossa circunstância. A Língua não é um fragmento da vida, ela nutre o viver.

            Inaceitável ouvir por aí gente dizer que detesta Língua Portuguesa. Que a Língua Portuguesa é isso e aquilo. Que não lê nada e nem escreve coisíssima alguma, mais por desgosto do que pela dificuldade. E falo apenas dos "alfabetizados", daqueles que, por um determinado tempo, passaram por uma escola, por uma universidade. Curioso é que não se ouve isso de um analfabeto, no sentido próprio do termo.

            Talvez eu esteja sendo ignorante demais em não compreender porque muitas pessoas, principalmente quando alunos, detestam Língua Portuguesa. Nada contra as outras línguas. Acho até salutar ser bilíngüe, "trilingüe" ou quantas línguas se queira falar. Agora, nascer aqui, estudar aqui, viver aqui e ficar por aí dizendo que detesta Língua Portuguesa não soa tão simples assim. Mas não dá mesmo para entender porque muitas e muitas pessoas ao passarem pela escola, às vezes por vários anos, continuam não escrevendo nada, lendo menos ainda e falarem por aí "a gente vamos", "nós quer". Tem algo de errado nisso. De criminoso mesmo, eu diria.

            O que não é fácil de entender é o porquê de uma pessoa que desde criança já convive com a Língua e mais tarde diz que detesta Português. O método que ensina a criança a falar é a convivência, ela aprende por si só; ouve, fala e faz com prazer. A curiosidade da criança em tocar as coisas parece ser tão intensa quanto falar uma palavra. A palavra pronunciada parece ser feita com sabor. Quer dizer, a Língua parece ser parte do ser criança. Parece?

 Com os adultos não é diferente. Com nossa Língua expressamos desejos, sensações de dor, de alegria, de angústia, facilitamos e dificultamos o viver. Dizemos sim, dizemos não, cantamos e proseamos. Através dela nos relacionamos, indicamos nossos gostos, nossas preferências. Fazemos isso tanto através do verbo quanto por escrito, portanto, não há porque cultuarmos o desprezo por ela. Se isso ocorre é porque há algo de errado no percurso das nossas vidas e a escola pode ser a "pedra no meio do caminho".

Podemos afirmar que a vida começa em harmonia com a Língua, diferente das Ciências, por exemplo. A criança, como foi dito, ama a Língua e não tem porque detestá-la mais tarde, só por um motivo muito forte isso vem a ocorrer.

É possível que o detestar a Língua Portuguesa resulte até no apreciar o estrangeirismo, expresso no gosto pela música, pelos nomes de pessoas, de empresas e dos costumes em geral.

Por exemplo: já está comum Michael de Oliveira, os James Dean da Silva e tantos outros. Nas empresas os nomes são os mais estranhos: Um palavreado desconexo e cheio de erros e uma pronúncia que às vezes soa ridículo.

E o que devemos dizer da propaganda? Com erros de concordância, de pontuação e de acentuação, produzida por pessoas graduadas em publicidade?

Que compreensão podemos ter de tudo isso? Arrisco um palpite. Pode ser o desprezo por nossa Língua que é produzido nas escolas. Dele nasce o protesto consciente ou por ignorância, mas um protesto. Por não gostarmos do que é nosso passamos a aceitar o que é dos outros, com distorções, por mais absurdo que possa parecer. Nada de me opor à palavra love, mas não posso negar minha preferência pela palavra portuguesa que expressa esse sentimento. Principalmente se me dirijo a um familiar, a um amigo, a qualquer pessoa com quem convivo. No meu contexto, a Língua é o meu viver.

O que se ouve, sobretudo nas escolas e de pessoas que dizem não gostar de Língua Portuguesa, virou uma brincadeira, e até ontem, não vi ninguém preocupado com isso. Será bobagem? Ou será que de tão sério que é o assunto as pessoas não querem se pronunciar? A escola está em silêncio, a mídia está em silêncio, a sociedade...

É um silêncio em Língua Portuguesa. É um gesto, é uma atitude, são muitas palavras. É um silêncio que inquieta.

 

*Nonato de Menezes

Professor na Rede Pública de Ensino no Distrito Federal


25/11/2007

Voltar
Publicações Anteriores
01/09/2010 Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT Leonardo Boff *, no Adital
19/07/2010 O Brasil e os Professores Theófilo da Silva [1]
13/07/2010 AS DEMORAS DA LEI THEÓFILO SILVA [1]
26/06/2010 Sobre a Tirania Theófilo Silva [1]
16/05/2010 O Vilão-Herói THEÓFILO SILVA[1]
29/04/2010 PÃO E CARNE Victor Neiva[1]
24/04/2010 POLITIZAR O FUTEBOL Nonato Menezes[1]
19/04/2010 AS LEIS DO ENSINO Nonato Menezes[1] Grasce Gondim[2]
19/04/2010 "Quem é que vai pagar por isso?" Neuman Guimarães [1]
16/04/2010 O Crime Compensa Theófilo Silva[1]
27/03/2010 Os Nardoni e os Macbeths Theófilo Silva[1]
25/03/2010 PEQUENO MANIFESTO CONTRA A VIOLÊNCIA NA ESCOLA Magno Rocha Ramos [1]
28/02/2010 DINHEIRO DO SUS DESVIADO PARA O MERCADO FINANCEIRO por Leandro Fortes, em Carta Capital
15/02/2010 A SERVIÇO DOS MERCADORES DO ENSINO Nonato Menezes[1]
09/02/2010 ESCOLA PÚBLICA: LUGAR DE CULPADOS E VÍTIMAS Grasce Gondim [1]
31/12/2009 Como é Bela a Humanidade Theófilo Silva [1]
25/12/2009 DO SERTÃO A COPENHAGUE Márcia Guedes [1]
20/12/2009 A Rede Globo não gosta de panetone? Nonato Menezes
10/12/2009 Virgilio Freire explica porque a Telefonica faz mal ao Brasil Virgilio Freire
10/12/2009 Lula, o mundo e a mídia* Beto Almeida [1]
06/12/2009 Os Discípulos de São Durval Theófilo Silva
06/12/2009 "As imagens não falam por si só" e o "suposto" Nonato Menezes
29/11/2009 DO PAINEL À PANDORA Nonato Menezes
24/11/2009 CEF 16 DE TAGUATINGA, SÁBADO, ESCOLA ABERTA Magno Rocha Ramos [1]
14/11/2009 BRASIL: PAÍS DAS PROVAS Nonato Menezes
10/11/2009 A Medicina e os Cães THEÓFILO SILVA [1]
27/10/2009 ODE A JUÍZA SONIA DAS DORES DIONISIO 1 Márcia Novaes Guedes.
25/10/2009 O SUMIÇO DE BELCHIOR THEÓFILO SILVA [1]
18/10/2009 APRENDENDO AVALIÁ Grasce Gondim [1]
15/10/2009 PARABÉNS PROFESSOR! Nonato Menezes e Grasce Gondim
08/09/2009 O GOSTO AMARGO DO SORVETE DA ESQUINA DA ALEMANHA Márcia N. Guedes - Juíza Federal do Trabalho
18/08/2009 Marina e o Rei Lear THEÓFILO SILVA [1]
13/08/2009 AQUI NÃO TEM PRAÇA Nonato Menezes
01/08/2009 A QUEDA DE WOLSEY THEÓFILO SILVA [1]
19/07/2009 NOSSA ESCOLA E O (DES)CONHECIMENTO Grasce Gondim [1]
15/07/2009 OS QUIXOTES INDIGNADOS THEÓFILO SILVA [1]
07/07/2009 VIVER DIFERENTE, MORRER IGUAL Nonato Menezes
07/06/2009 DOS HOMENS PÚBLICOS THEÓFILO SILVA [1]
25/05/2009 O FEITIÇO DE CLARICE Márcia Guedes[1]
18/05/2009 O ESPANTALHO THEÓFILO SILVA [1]
09/05/2009 Discurso de Leonardo Boff na ONU Leonardo Boff
04/05/2009 MUNICÍPIO DE MT AVANÇA NA MELHORIA DO ENSINO PÚBLICO Nonato Menezes [1]
29/04/2009 PEDAGOGIA QUE SAI DOS FILMES Gina Vieira Ponte de Albuquerque [1]
19/03/2009 FALTANDO COM A HISTÓRIA Márcia Novaes Guedes [1]
29/01/2009 CONTRA OPORTUNISMOS E EM DEFESA DO DIREITO SOCIAL VÁRIOS AUTORES
04/12/2008 PERGUNTANDO AO VENTO Márcia Novaes Guedes*
13/11/2008 VOLVER A LOS DESESSIETE Márcia Novaes Guedes*
24/10/2008 SEM RAZÃO E SEM VIVÊNCIA Nonato Menezes[1]
20/09/2008 VIVA PAULO FREIRE! MÁRCIA NOVAES GUEDES [1]
15/09/2008 A SÚMULA VINCULANTE E A TEORIA DO MEDALHÃO Márcia Novaes Guedes[1]
17/08/2008 Quando as baratas aparecem durante o dia... Vera Silva[1]
11/08/2008 OS "FASCISTAS DEMOCRÁTICOS" Nonato Menezes [1]
30/07/2008 O CASO DANTAS E O "HABEAS CORPUS" DA ONU Márcia Novaes Guedes [1]
03/07/2008 FALTA PEDAGOGIA Nonato Menezes[1]
24/06/2008 UNIVERSIDADE PÚBLICA E DEMOCRACIA RADICAL Elí de Araujo[1] e Adalberto Nader[1]
15/06/2008 A CAIXA PRETA DO FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO DF João Monlevade[1]
12/06/2008 ELEIÇÃO DE REITOR COMO PRÁTICA PEDAGÓGICA João Monlevade[1]
11/06/2008 OS PROFESSORES, OS ECONOMISTAS E A REPROVAÇÃO ESCOLAR Nonato Menezes[1]
08/06/2008 VIOLÊNCIA NA ESCOLA OU ESCOLA DA VIOLÊNCIA Nonato Menezes [1]
06/05/2008 AMASSANDO MENINAS Márcia Novaes Guedes1
06/05/2008 AMASSANDO MENINAS Márcia Novaes Guedes 1
26/04/2008 UM ENSINO MÉDIO MELHOR Nelson Moreira*
25/04/2008 PASCHOAL E BEZINHA Márcia Guedes1
13/04/2008 O ENSINO PROFISSIONALIZANTE E A PERPETUAÇÃO DA DESIGUALDADE SOCIAL Por Alessandro Eloy Braga*
12/04/2008 OS RUMOS DA EDUCAÇÃO E A CONTRIBUIÇÃO DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL Lúcia Maria de Oliveira Santis1
06/04/2008 EDUCAÇÃO BRASILEIRA: SCHOPENHAUER ESTAVA CERTO Por Alessandro Eloy Braga*
06/04/2008 "O SILÊNCIO É REACIONÁRIO" Nonato Menezes*
30/03/2008 UM DESPERTAR PARA A EDUCAÇÃO Por Alessandro Eloy Braga*
17/03/2008 NA FRONTEIRA DA BANALIDADE *Nonato Menezes
14/02/2008 LER E ESCREVER *Nonato Menezes
30/01/2008 GESTÃO COMPARTILHADA COM TANTAS MENTIRAS Nonato Menezes
23/12/2007 O ESPÍRITO DE NATAL PEDE ESMOLA Márcia Novaes Guedes [1]
07/12/2007 ENSINAR SEM GRAMATICAR Nonato Menezes
19/11/2007 GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA:ESCOLA, MORAL E RESPONSABILIDADE SOCIAL *Nonato Menezes
31/07/2007 SOBRE UMA PEDAGOGIA DA AUTONOMIA Alessandro Eloy Braga*
11/06/2007 SOBRE A REPROVAÇÃO NA ESCOLA *Nonato Menezes
04/06/2007 ESTUDAR É UM DEVER, NÃO UM DIREITO Alessandro Eloy Braga
03/06/2007 Ética na Escola Lúcia M. O. Santis
25/03/2007 Para um ensino PÚBLICO de qualidade *Nonato Menezes
21/03/2007 Educar é transformar a realidade para melhor *William Aguiar
19/03/2007 A PRÁTICA DO PEDAGOGO (A)/ORIENTADOR(A) EDUCACIONAL ... Lúcia Maria de Oliveira Santis (Coordenadora)
11/03/2007 Avaliação do ensino público no DF *Adilson César de Araújo
11/03/2007 Ensino público do Brasil; uma arma em sua defesa *Omar dos Santos
11/03/2007 A SAÚDE DO TRABALHADOR EM EDUCAÇÃO NO DISTRITO FEDERAL *Victor Mendonça Neiva


                                             Desenvolvido por: Edes Gomes da Costa                                              Visitante: