O que é uma "pedagogia da autonomia"? O que significa ver o aluno como sujeito principal do processo de ensino-aprendizagem?
Se queremos construir uma "pedagogia da autonomia", como propunha Paulo Freire, precisamos atribuir ao aluno as responsabilidades e deveres que a autonomia traz. Ser autônomo é ser dono de si. Ser autônomo é responsabilizar-se por seus atos. Ser autônomo é realizar seus deveres e exercer seus direitos. Ser autônomo é pensar por si só, mas sem perder de vista o próximo, o diálogo, as suas responsabilidades sociais. Para se ser autônomo é preciso, antes, ter maturidade.
As propostas pedagógicas atuais, que vemos nos livros, nas palestras e até nos documentos oficiais, não propõem uma "pedagogia da autonomia", mas sim uma "pedagogia paternalista", no pior sentido da expressão. Não adianta por todas as crianças e adolescentes na escola se não ensinarmos a eles responsabilidades, deveres, disciplina, respeito, civilidade, coletividade, moral e ética, além de todos os conteúdos científicos necessários para a construção de um conhecimento imprescindível para pensar e tentar entender o mundo e a vida e para viver em sociedade.
Se o aluno é o "sujeito" principal do processo de ensino-aprendizagem, como afirmam os especialistas em educação e a legislação educacional, então é preciso que ele desempenhe este papel, o que ele não tem feito. Sujeito é aquele que faz, que age, que assume responsabilidades, que conduz o seu próprio caminho, que escreve sua própria história, que chama para si o que tem que ser feito. Isso é ser sujeito. Nossos alunos, por culpa de nossas pedagogias e estruturas educacionais, não são sujeitos de nada, a não ser de sua própria ignorância e preguiça.
Para haver uma "pedagogia da autonomia", o professor não deve ser um "facilitador", alguém que está ali para "satisfazer" o aluno. Este tipo de afirmação, que facilmente vemos em textos sobre uma tal "qualidade total na educação", difundida aos quatro ventos em palestras por todo o país, proferidas por pessoas formadas em administração, economia e gestão de pessoas, que pensam que entendem de educação, mas que, na verdade, enxergam a educação apenas como formadora de mão-de-obra técnica, defendendo uma "pedagogia do capitalismo" e um esvaziamento do humanismo presente em uma educação formal séria e verdadeira. Discurso perigoso este da "qualidade total na educação" e que tem contribuído significativamente para o desinteresse e a preguiça dos alunos, para a formação de pessoas cada vez mais fúteis e vazias de humanidade e para o desprestígio profissional dos professores e da escola.
Ninguém diz a um médico, a um advogado, a um engenheiro, a um odontólogo, a um arquiteto que eles precisam ser um facilitador. Não, o PROFESSOR não deve ser um facilitador, ele precisa ser um DESAFIADOR do aluno. Ele precisa fazer com que o aluno perceba que ele necessita aprender cada vez mais, ou como dizia Sócrates, perceber que "só sei que nada sei", para que este aluno entenda que o conhecimento é construído em uma aprendizagem constante. Os alunos e os pais e a sociedade têm entendido a idéia de que o "professor deve ser um facilitador do processo de ensino-aprendizagem" como "o professor deve facilitar a aprovação do aluno", passando "trabalhinhos", "atividades extras", "dando pontinhos" para que o aluno tenha uma média no final do ano letivo, evitando, assim, que ele reprove. Reprovar, hoje, é um "crime" da escola. O Ministro da Educação, Senhor Fernando Haddad, vai à televisão, em um programa de entrevistas, para afirmar que é preciso acabar com o que ele chamou de "indústria da reprovação", como se os professores e a escola estivessem organizados, como estão os traficantes dos morros e os corruptos do executivo, do legislativo e do judiciário em sua "indústria do crime organizado", para reprovar deliberadamente os alunos. Mas, como aprovar alguém que não conseguiu desenvolver as tais "competências" e conteúdos mínimos necessários para continuar sua caminhada escolar e, assim, caminhada social e pessoal? E o pior de tudo isso, os especialistas e os pais apóiam este tipo de estrutura "facilitadora".
Onde está a responsabilidade dos pais no que se refere à formação de seus filhos? Nenhum pai ou mãe parece querer que seu filho repita um ano escolar, preferindo que passe de ano mesmo não tendo atingido a maturidade intelectual necessária naquele momento. Eles preferem que seus filhos não se atrasem um ano a ter um filho bem formado e mais maduro. Isso é ter responsabilidade sobre a formação dos filhos? Onde está a responsabilidade do Estado, que, agora, propõe uma tal "progressão continuada" ou "aprovação automática", incentivando e premiando a mediocridade intelectual? É a nova "pedagogia do faz se quiser".
Lembremo-nos do dito popular "o que vem fácil, vai fácil". Se a educação passa a ser um processo fácil e o professor um facilitador, então a educação corre um sério perigo de se tornar um processo vazio e efêmero; como parece que já se tornou. Quanto mais fácil o processo de ensino-aprendizagem, menos esforço e dedicação e responsabilidade o aluno terá e, assim, cada vez menos aprenderá. O aluno e a sociedade e o Estado precisam entender, enfim, que educar-se não é um direito, é um dever.
Se é o aluno quem precisa aprender, então que se debruce sobre os livros, que preste atenção às aulas, àquilo que seus professores têm a dizer. Que ele participe ativamente das aulas, dialogando com seus professores e colegas, questionando-os e questionando-se sobre o que está sendo estudado. Que se preste ao trabalho de relacionar aquilo que lê nos livros, escuta do professor e debate em sala com aquilo que é sua vida, procurando usar tudo isso para o seu bem e o bem da sociedade. Ao estudar, o aluno está apenas fazendo o seu dever de se tornar alguém melhor, para si e para a sociedade.
O que é autonomia? O que é ser sujeito? É escrever sua própria história com responsabilidade, humanidade e verdade. É assumir seus direitos, mas antes assumir os seus deveres. O destino desta nação brasileira que não assume seu dever de se educar é a permanência ad aeternu no solo árido e seco da violência, da lei do mais forte, da escravidão explícita ou implícita, da incapacidade de ser melhor, da passividade e do holocausto. No fosso profundo de sua cegueira, esta nação permanecerá pelos tempos à espera que algum deus do vazio venha trazer algum momento de prazer insípido, enquanto corre rumo ao nada, tendo nos pés uma esfera que poderia ser, ó nação, o seu próprio mundo sendo desprezado a ponta pés.
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