A educação escolar brasileira, como de resto todo o modelo de formação profissional, intelectual e ética de nosso país está em ruínas. Até aí, nada de novo, o fato já é de domínio público. Mesmo não querendo adotar como justificativa as evidencias que universalizam a essa questão, pensamos importante o entendimento de que o problema não é brasileiro, mas de todas as sociedades atuais.
Contudo, não se tem notícia de tanta deformação em lugar algum do mundo dito civilizado. Pelo contrário, o que se constata é que esse império das consciências, que atende por imprensa, isto entre os mais antigos, e por mídia, entre os modernos, acha uma burrice desperdiçar espaço com informações, nem que sejam as de nota de rodapé para falar dos conceitos da moral, dos costumes e dos modos de existência de quem não "topou" se mudar para debaixo da lona do "circus" global, e esses se contam tão raros.
É nesse contexto que devem ser compreendidas as desavenças, os desajustes e as deformações da educação escolar do Brasil.
Aqui, como no resto da aldeia, a situação é grave, mas pior que essa gravidade é o fato de que, pelo nível e pela intensidade do debate pedagógico, a esperança de soluções em prazo pelo menos razoável é, como se diz, manga de colete. Pelo que se vê e se ouve não há dúvida de que o problema virou malária, não mata, mas não sara.
Fôssemos nós perquirir as propostas, as promessas e as falas de todos os tempos de campanhas eleitorais, relembraríamos, e esse é o problema, (só si relembra o que já caiu no esquecimento), que esses tempos de penúria e momentos bestiais, como diriam os "meio" amigos portugueses, trazem-nos uma fertilidade de soluções verdadeiramente originais e inimagináveis para o problema, o leitor pode aqui saborear algumas:
Um candidato a governador de São Paulo, estado mais rico e importante do país, o primeiro a constituir uma rede escolar, afirmou, e o fez com uma convicção inquebrantável, que se eleito implantaria avaliações, digo, "provas", de dois em dois meses para os alunos do Ensino Fundamental, resolvendo, assim, todos os problemas da falta de qualidade da educação daquele estado.
Em tempos anteriores, certo presidente da república já havia afirmado que a causa de nossas crianças e nossos jovens não conseguirem aprender a ler e a escrever se devia à falta de avaliação.
Um desses tantos secretários do Ensino Fundamental do Ministério da Educação que se revezaram no cargo nos últimos anos, por estar convencido de que a ineficiência do ensino brasileiro é um problema de tempo, propôs e viu ser aumentado mais um ano no Ensino Fundamental. Deve ter ficado quase satisfeito, digo quase, pois queria mais dois para esse ensino e mais dois para o Ensino Médio. Está próximo o dia em que as crianças sairão do berçário direto para a escola.
Os articulistas... um deles, renomado, afirmou em nome de um jornal também de fama nacional, que o problema do ensino brasileiro é de autoridade. Falta autoridade, falta castigo, falta a palmatória que existia em seu tempo. Assim fica difícil ler jornal.
Aqui no Distrito Federal, um monte de tecnocratas, não se sabe se são só tecnocratas ou se chegam a pedagogos honestos por seus princípios, o mais provável é que não cheguem a isto, mas que são mal intencionados se sabe. Pois bem, esses 'teoricidas', (desculpem-nos pelo neologismo impróprio, mas necessário), acreditam que educação escolar é coisa do passado, se assim não é, nada justifica a sanha com qual se atiram em um processo criminoso de desmonte da rede pública de ensino. Para esses "sábios", os professores que recebem as últimas conquistas da modernidade tecnológica, - giz e quadro negro -, trabalhadores que são obrigados a atenderem diariamente, e em um turno, seis turmas com mais de cinqüenta alunos "exprimidos" em espaços feitos para trinta e poucos, não podem se quer queixar de doenças. "Isso é falta de profissionalismo", disse o, e faz pouco tempo, uma das muitas Secretárias de Estado da Educação da capital do Brasil, que se sucedem no poder. E disse mais, são os professores os responsáveis primeiro pelo baixo rendimento escolar da rede.
É ou não uma verdadeira antologia, essas lições de pedagogia e didática.
Mas o problema não para por aí.
O grande fórum de debate sobre a educação hoje são alguns raros programas de rádio e outros, muito mais raros, de televisão. A questão é que se isso não é tudo, não é o bastante e nem é o mínimo necessário, contudo é melhor que nada.
O problema é que todos "palpitam". Falam jornalistas, muitos deles com visíveis dificuldades para o exercício de sua própria profissão, fala o padre sem fieis, o médico sem pacientes, o advogado sem causas, o engenheiro sem obras etc., só não falam os professores. É possível que a maioria deles, os professores, também não tenha muito a acrescentar a esse debate vincado por uma indigência teórica insuportável para uma ciência da envergadura política, social e econômica para um povo, como é a educação. A questão é que sem a fala do educador na crítica à educação, não há saída possível para a escola. A catarse não se dará jamais.
São essas reflexões e considerações que definem o pano de fundo que dá sentido e orientação à missão do site ensinopublico.pro.br
João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, atribui como "missão" do filho de Mestre Carpina, no momento em que ele chaga ao mundo, a responsabilidade do "novo" contaminar o "velho". O site toma emprestada essa alegoria, adotando-a como lema.
Como coisa que quer se renovar para ser novo o tempo todo, o site não adotará posições reacionárias, como tanto se vê em vastos seguimentos acadêmicos e no concerto das profissões autônomas deste país, os quais se bastam nos debates limitados às cercanias de sua reserva de mercado.
Por outro lado, nunca pode ser novo o propósito que não se qualifica. O novo na educação não transige com a qualificação e nem com o debate. Hoje, este último está esvaziado e vem conduzido por quem não tem conhecimento e nem compromisso com o ensino publico de qualidade, necessário ao país.
Para se envelhecer novo, o site será capaz de morrer pela liberdade de opinião, sendo o seu critério único o da qualidade. Não há nenhuma dúvida de que só a crise gerada por idéias discordantes é mortal para a mesmice. Não pode haver reticências sobre a verdade de que só o confronto de opiniões e de saberes pode construir as soluções tão necessárias e urgentes à escola brasileira.
Paulo Freire ensinou aos oprimidos de todos os cantos do mundo que a educação é sempre um ato político. Como tal, nele não cabem nem a consciência ingênua, nem o ativismo voluntarioso e nem o sacerdócio salvacionista. Educar exige capacidade de síntese e percepção crítica da realidade. Só o debate, o confronto de saberes e a disposição de ser convencido fazem a luz.
É com esse espírito que nasce esse novo espaço, que se define como um canal aberto a quem quiser e puder defender a educação, sobretudo a pública.
Aguarda-se que os guerreiros se alistem já.
*Omar dos santos
É professor aposentado