Hamlet é chamado pelos críticos de herói-vilão. Um homem virtuoso imbuído de uma causa nobre que tem como objetivo criar bem estar geral, mas que, com suas ações arrasta outros para a destruição. Mesmo que Hamlet seja dono de uma consciência ilimitada, ele não enxerga ninguém ao redor na briga para pôr seu país no caminho certo. "O mundo está torto e é preciso endireitá-lo". Em sua luta pelo bem, ele consegue fazer justiça, mesmo com o sacrifício da própria vida e da de outras pessoas que ama.
O Marechal Henri Philipe Pétain, herói francês da Primeira Guerra Mundial, é o caso de um herói que se tornou vilão. Petain foi o homem mais amado da França no período entre as duas guerras. Muitas mães francesas deram aos seus filhos o nome de Philipe em homenagem ao herói da batalha de Verdun. Vinte anos depois, durante a ocupação nazista, Pétain traiu a França colaborando com os alemães. Foi condenado à morte após o fim da Guerra e só escapou do fuzilamento porque já estava com noventa anos e senil, teve a pena comutada por Charles de Gaulle, mas ficou marcado como traidor.
Outro vilão de fama mundial foi o mafioso italiano Tommaso Buschetta, refugiado no Brasil. Em virtude de brigas internas da Máfia que dizimaram sua família e o tornaram um condenado a morte, Buschetta, procurado pela justiça italiana, acabou fazendo um acordo de delação premiada e entregando boa parte dos chefões da organização criminosa. Buscetta foi o primeiro membro da "Cosa Nostra" italiana a quebrar seu "código de honra", ou seja, teve a coragem de "abrir o bico". Suas informações à justiça levaram ao desmantelamento da Máfia com dezenas de prisões, causando um prejuízo do qual ela nunca mais se recuperou. Buschetta é criminoso, vilão, mas suas denúncias lhe deram ares de herói.
Roberto Jeferson não deixa de ser um exemplo, deputado pelo PTB, Partido famoso por sua concupiscência com o poder - está sempre do lado de quem dá mais - causou uma hecatombe revelando os bastidores do Congresso Nacional nas suas relações com o executivo, provocando grandes mudanças políticas no País.
Novelas estão cheias de vilões e de heróis. De mocinho e de bandido, mas não é assim aqui fora. Os vilões-heróis e heróis-vilões são raríssimos, só aparecem em intervalos muito longos e podem ser contados nos dedos de uma mão.
O Direito e a Justiça se apropriaram desses vilões, oferecendo-lhes oportunidade de recuperação quando tudo parecia perdido para eles. Suas informações trazem enormes benefícios para o Estado, desmontando as organizações criminosas formadas por homens públicos em conluio com empresários e outros agentes.
Ocorreu em Brasília o surgimento de uma dessas figuras trágicas. As declarações do ex-delegado Durval Barbosa, com dezenas de processos e condenações, após acordo de delação premiada com a Promotoria, transformaram-no numa espécie de vilão-herói. O anti-Hamlet. Suas declarações derrubaram todo o governo da capital do país, enterrou seu já desmoralizado legislativo, desnudou o ministério público, cutucou o judiciário, expôs o empresariado e tirou o sono dos mascarados. Resultado: poupou milhões em impostos e prestou um serviço enorme ao país.
A peça ocorre em de forma de tragédia e ainda não terminou, teremos outros atos, a cena final e o descerrar das cortinas!
Theófilo Silva[1]
é autor do livro A Paixão Segundo Shakespeare e articulista colaborador da Rádio do Moreno.