Muito já se disse: "onde se ganha o pão, não se come a carne. Mas de nada adiantaram os comentários desinteressados e as firmes advertências por quem se importava com eles. Como se sabe: emoção é força; razão, perseverança. Ante o irresistível impulso daquele jovem tolo coração, só sobrou à velhinha recalcitrante da cabeça ceder silenciosamente. Enfim, estavam juntos.
Casal de mesma idade, conheceram-se ainda no tempo de faculdade, prestaram o mesmo conurso e, hoje, trabalhavam no mesmo local. No início o fogo da paixão fez eles um só, andavam trocando carícias em impertinentes ambientes (pois o carinho é sempre adquado o local é que não), ajudavam-se em suas dificuldades e tentavam dividir os prazeres descobertos no curso da vida. Até o samba que fazia daquele homem se sentir sempre solitário, pois nunca encontrou quem de seu burguês universo o acompanhasse, desta vez se tornara ideal com a companhia dela. A exuberância do afeto, a euforia da paixão e a unidade do amor não deixava de causar certa inveja por quem quer que passasse.
E eles percebidos disso e domindados pelos seus jovens tolos corações, passavam imponentes calando aqueles que, de boa fé ou não, fizeram ressalves de cuidado ou advertência de fuga. Coitada da razão! A velinha teimosa vivia num reticente silêncio que dava dó. Já não mais se manifestava sobre os planos mirabolantes de se viver o amor eterno, tais como o tão fantasioso casamento de véu, grinalda, buffet, lua-de-mel, casa, decoração, filhos, etc...
Mas, embora os sonhos fossem os mesmos, o ritmo era diferente. Tendo a mesma idade, homem e mulher seguem ritmos diferentes de realização de seus projetos. É até mesmo uma questão natural, pois ter filhos para a mulher tem data certa para acabar, enquanto para o homem pode-se fazê-los em qualquer momento da vida.
E este impasse, no início sutil e pequeno, aumentava à medida que chegavam os momentos de os sonhos se realizarem. Os gordos salários, que para ela era para o novo e belo apartamento, ele gastou a sua parte na compra de uma moto - sonho de criança e símbolo da autonomia em relação aos pais (afinal, o que mais do que a compra de uma contrariando a mãe para se provar que se tem autonomia financeira?).
Aquela moto lhe causou o ódio mais mortal. Nem tanto pelo veículo em si, mas por ver nele o desvio de objetivo e o esvair de seu sonho. E o que poderia ser resolvido com um bom diálogo e com dois ou três anos de tolerância de parte a parte, se tornou intransponível pela cegueira da paixão e do fatalismo da juventude.
Ela passou a só falar de casamento; ele, a desconversar. Ela tentava criar situações românticas e "luas-se-mel", mas ele só via naquilo formas de insistir no outrora tão sonhado casamento, passando a sair contantemente como os amigos para peladas, bares e puteiros.
Começaram então a se afastar e, quanto mais se distanciavam, mais ela se desesperava a implorar para que ele a fizesse feliz realizando seus sonhos, mesmo que a despeito dos seus próprios.
Enfim, a velhinha recalcitrante consegue se manifestar e, certeira como sempre, sentencia: "já era".
É ele quem toma a iniciativa. De repente, o castelo desmorona-se, os doces sonhos viram mordazes frustrações e a culpa apressadamente empurrada para o outro o alento que, embora causador de amargura, diminui uma tristeza inabalável, substituindo-a em parte por uma raiva desproporcional.
A diferença de ritmo que é evidente nas grandes coisas, também existe no microcosmo das desilusões. Ele primeiro se alivia e grita liberdade, ela chora; depois ele passa a notar a falta que para ela já é bem menor. A carência em ambos é devastadora, muito embora não concomitantes e os apelos de parte a parte se sucedem, vindos cada vez de uma boca.
A situação agora assume contornos de evidente sofrimento em face do ambiente de trabalho. Vêem no olhar de todos a reprovação e a piedade - reverso ingrato de quem amou demais, o que lhes agrava a angústia e o sentimento depressivo de falta de perspectiva em face do ambiente de trabalho. São o assunto de todos e motivo de fofoca geral. Os constrangimentos sucessivos, os rostos piedosos e a semgraceza universais tornam insuportável aquele local que normalmente seria a válvula de escape de toda a frustração existente. Os atestados médicos se sucedem. Pululam lembranças dos avisos, e a imagem velhinha por si só é um motivo de vergonha. E como se não bastasse a tristeza tem agora que lidar com um sem número de sentimentos que a potencializam terrivelmente.
E os apelos continuam. Se serão respondidos, só o tempo dirá. Ou será que não? Ele, após superada a depressão dela, busca enfim o reatamento, lhe trazendo com o seu jeito sedutor as mesmas memórias dos bons momentos que por um período os mantiveram juntos. Além disso, são os telefonemas, as serenatas, as cartas de amor e as declarações públicas de afeto.
No início reticente, ela paulatinamente troca a aparência de frieza por um escondido encantamento. Ele percebe, e intensifica sua ivestidas, sem que ela deixe de se deixar ver meio reticente. A culpa empurrada, que outrora aliviou a dor, hoje é o empecilho ou o atraso à felicidade.
Enquanto isso ela encontra Betânia no Shopping. Desgraçado acaso, esbravejaria ele! Repouso certo da amargura errante, a amiga era mulher que tentava acobertar seu desengano se mostrando poderosa e desejada.
Betânia, que já soubera de sua tristeza por outro encontro passageiro, a chama para sair com ela - convite que é negado. Insistindo - o erro fatal de quem ao se degenerar tenta fugir da culpa afirmando que o mundo todo é degenerado - tenta convencê-la afirmando que os seus ex-noivos estavam "pegando todas" juntos.
Pobre dele! Havia visto a Betânia uma única vez em que saíra com seu noivo, quando ficou com uma estudante que não lhe despertou qualquer interesse posterior.
Agora, aquele obstáculo já quase transposto voltou à condição de muralha. A mágua por motivos então bobos trona-se visceral raiva por motivo (aparentemente) real. Que amor é esse que ao mesmo tempo divide seu afeto com outras? Será que isso acontecia quando estávamos juntos? Eu coheço este homem? Com que cara eu voltarei pra ele?
Todas essas perguntas somadas à dor de uma traição inexistente - mas que dói como se fosse - parecem a mais terrível das agressões, o mais tenebroso desrespeito, a mais cabal demonstração de que o amor dele não é tanto assim (muito embora de fato seja) e que ele não vale a pena.
Ela some. Sabendo por meio das fofocas laborativas do ocorrido, ele tenta remediar a situação. Conversa com ela, coloca o batalhão de choque (também em grande parte laboral) para tentar convencê-la de que não há gravidade na situação e que houve apenas um exagero da parte de uma mal-amada.
Todas as tentativas são em vão. O ciúme a domina, embora não com esta aparência (aliás, poucos sentimentos mostram verdadeiramente a sua verdadeira face, exceto alguns como a paixão, o amor e o ódio que, expressão do domínio do tolo coração, não possuem maiores pudores e cuidados) e a raiva lhe é difícil continência.
A tentativa desesperada dele tem uma cruel consequência: ela, usando das frases de Monarco tão bem cantadas por Paulinho da Viola profere com tom solene o samba que deveria ter sido cantado em uma roda qulaquer: "Se o teu amor fosse um amor de verdade, eu não queria e nem podia ter maior felicidade. Com os olhos d`água me chamou implorando meu perdão mas eu não dou. Pega este lenço para enxugar seu pranto. Já enxuguei o meu, e o nosso amor morreu."
Aquilo foi mortal. Um samba. Justo um samba, o seu samba. A melhor memória que tinha dela, o símbolo do quanto ela era tão especial, a mulher de sua vida, o caminho certo e inexorável de sua felicidade.
Certamente ela o fez para ferí-lo, mas não sabia que o ataque seria tão avassalador. Para ele, a partir de agora, passou a achar que criara um ofídio que o atingiu com o que tinha de mais íntimo e pessoal. E pior, lhe retirou o seu mais importante espaço de vida e de elaboração de suas idéias. Como ir a uma roda de samba ou a um clube de choro sabendo que poderia encontrá-la, quiça com outro?
Mais do que a ele próprio, tinha traído as melhores lembranças de um belo amor. Ele pensou em responder também em samba ("Trago em meu coração uma frande lição que contigo aprendi. Tu me ensinaste em verdade que a felicidade está longe de ti"- Paulinho da Viola), mas não lhe restara forças para tanto e nem teria o mesmo impacto - o samba não viera dela.
Estava derrotado o tolo coração. Afundara completamente no silêncio e no desamparo. Mais do que a perda de futuros momentos felizes com ela, os passados perderam o seu sentido. Nada mais sabia, nada mais falava, nada, nada, nada... Só sobrou a velhinha - recalcitrante, cruel, mas não falastrona - a terrivelmente concluir: "eu não disse".
Victor Neiva[1]
É Advogado em Brasília