Dia desses um amigo, meio preocupado, reclamava da coincidência da data do vestibular com o primeiro jogo da nossa seleção na copa do mundo, agora em 2010. Essa coincidência, segundo ele, atrapalharia as provas e, mais uma vez, estaria mostrada alí a nossa aptidão para inverter prioridades. Seu ponto de vista é que o vestibular é muito mais importante do que uma partida de tubebol. E, claro, mais importante do que o próprio futebol.
Não concordo. Inclusive, disse a ele que o futebol é muito mais importante do que o vestibular, porque em dia de jogo da copa do mundo o país para, enquanto aquelas provas em nada mudam a rotina das nossas cidades, e ás vezes nem mudam de fato a vida dos que a fizeram. Por este e por outros motivos, o futebol no Brasil é, de longe, muito mais importante do que o vestibular. E não tenho a menor intenção de ironizar.
Mas fiquemos apenas no que é, de fato, mais importante.
O futebol não é apenas um evento. O Futebol é uma instituição que tem linguagem própria, envolve milhões de pessoas, oferece momentos de alegria à sociedade quase inteira, como nehuma outra. No âmbito dos negócios, o futebol é tão relevante que talvez não se conheça a dimensão exata do que alí existe em termos econômicos. Dos salários à elevada produção industrial voltada para esse esporte. Da sonegação à contribuição previdênciária ao pagamento de tantos impostos. É muito dinheiro envolvido. Alguém saberia dizer quanto?
Socialmente, o futebol tem também uma força incomparável. Só o ensino e o trabalho têm poderes de inserção social mais amplos do que o futebol. Com uma pequena diferença: a instituição futebol é mais democrática e na mobilidade social ampla, sua inserção é baseada no talento.
Infelizmente, apesar de tão democrática, ampla e de dimensão estraordinária, a instituição futebol "esconde", também, distorções profundas. Entre elas, a disparidade que há nos salários de jogadores profissionais. Tavez seja esta a categoria profissional onde a diferença entre aquele que ganha mais e o que ganha menos, seja a mais acentuada. Por isso, a instituição futebol, é tão forte quanto injusta. Mas não poderia ser diferente, afinal estamos no Brasil: terra da desigualdade.
E é este ponto que precisa ser mais conhecido, discutido e politizado, porque o futebol pode ser o ponto de partida, a porta de entrada da ascensão social. É ali que o jovem pode ser motivado, incentivado, atendido ou, definitivamente, impedido. Infelizmente, este caminho, quase sempre, é aberto por um "olheiro", a mando de um cartola que não tem nenhum compromisso social. É inegável que sua força vem das camadas populares. Nas várzeas, nas favelas e nas cidades do interior é que surge o maior contingente de grandes craques.
Se descoberto o talento de um jovem, regra geral, muito pobre, segue a via da exploração por um lado e do enrequecimento desmedido por outro. Até que o jogador bata à porta da fama, sua condição não passa de mercadoria barata, mesmo sendo de qualidade, mais ou menos parecido com a relação do escravo e o senhor de engenho no nosso Império.
É este ponto que poderia ser visto como política pública para redefinir os parâmetros da Instituição Futebol no Brasil. Se pensado e responsavelmente trabalhado, o futebol poderia criar milhões de empregos e assim possibilitar a ampliação das possibilidades de ascensão social, inclusive, oportunizando aos jogadores a aquisição de saberes, afinal, superar o analfabetismo é, sem dúvida, uma séria questão social.
Por isso o futebol precisa ser discutido, estudado, compreendido e tratado como instituição de natureza pública. O futebol no Brasil é muito importante para ser visto apenas nas linhas do ufanismo idiota das nossas rádios e televisões, que, através de seus cronistas, fazem de tudo para evidenciar sua condição evento que é alimentado pela paixão do torcedor. Escondem, sem nenhuma sutileza, os benefícios que a população poderia ter, se o futebol fosse usado como caminho para distribuir renda, gerar empregos, ascensão social e, sem perder a importância de evento, se tornar numa das mais importantes instituições da vida brasileira.
Nonato Menezes[1]
Professor na Rede Pública de Ensino do DF