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Os Nardoni e os Macbeths
THEÓFILO SILVA[1]

Quem lê ou assiste Shakespeare pela primeira vez, tem a impressão de que o Bardo exagera na caracterização e no comportamento de seus personagens. Acham que os personagens são generosos demais, ingênuos, engraçados e cruéis demais. Que "pessoas assim" só existem na literatura ou no teatro, nunca na vida real.

 Eu tive essa impressão quando li Macbeth há vinte anos. A impecável peça - a mais enxuta - entre as trinta e oito escritas por Shakespeare contém uma fala, que eu aponto como a mais forte e dolorosamente cruel já escrita pelo Bardo.

 Diante dos planos para matar Duncan, o bondoso rei da Escócia, Lady Macbeth vê o marido fraquejar diante da diabólica trama. Entre as muitas sentenças que a cruel dama pronuncia, tem uma que é extremamente assustadora e que não parece possível de ser executada por qualquer ser humano, ainda mais por uma mulher. Tentando convencer o marido, ela diz: "Já amamentei e conheço como é agradável amar o terno ser que em mim mama. Pois bem, no momento em que estivesse sorrindo para meu rosto, teria eu arrancado o bico de meu peito de suas gengivas sem dentes e ter-lhe-ia feito saltar o crânio, se o tivesse jurado como assim juraste...". Brutal! Infelizmente, dolorosamente, existem pessoas más o suficiente para praticar tais atos.

 Como se sabe depois do assassinato do Rei, ela vira sonâmbula e falando sozinha, passa a lavar permanentemente às mãos, para "limpar o sangue" e termina se suicidando. Lady Macbeth assustou o pai da psicanálise, Sigmund Freud, segundo ele mesmo, "até às raias da loucura". Como não conseguiu explicar o comportamento dessa personagem terrível, Freud tentou encontrar falhas na peça.

 Quando o Caso Nardoni ganhou as manchetes e causou profunda comoção no Brasil inteiro e mesmo fora do país, lembrei-me da cena de Shakespeare que acabei de narrar. Chegou-se a dizer: "Não pode ter acontecido, um pai não pode matar um filho, principalmente uma criança, um ser, cujo maior direito é o de ser protegido" clamaram muitas bocas. Aos poucos a verdade foi aparecendo e todas as evidências confirmaram o que, pavorosamente se parecia desde o início: o casal Nardoni espancou e matou uma criancinha de cinco anos, jogando-a do alto de um prédio.

 Ato mais pavoroso é impossível, a não ser com pessoas sobre efeito de drogas. No plano do normal é inconcebível, impensável, porque atos dessa natureza roubam do homem o direito a civilização, a vida deixa de existir e nos transformamos em bestas. Daí não ser possível acreditar no que ocorreu.

 Durante o julgamento do casal Nardoni, esses monstros das profundezas, o advogado de defesa, querendo desqualificar o depoimento, perguntou ironicamente a delegada responsável pelo inquérito, se era possível e se ela já tinha visto algo tão terrível; um pai matar uma criança. Ela respondeu que sim, e de maneira até mais brutal. E fez uma narrativa de uma ocorrência ainda mais dolorosa, bestial e inumana que aquela.

 Antes de praticar o ato monstruoso, Macbeth diz para si mesmo: "Estrelas, escondei vossos fulgores para que a luz não veja meus negros e profundos desejos". Foi assim que ocorreu com os Nardoni, que, agora se igualaram ao casal Macbeth e que, segundo Shakespeare, "assassinaram o sono". Os Nardoni nunca mais dormirão. Que voltem para as profundezas de onde nunca deveriam ter saído.

 

Theófilo Silva[1]

é autor do livro, A paixão Segundo Shakespeare e colaborador da Rádio do Moreno.

 


27/03/2010

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