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DO SERTÃO A COPENHAGUE
MÁRCIA GUEDES [1]

Domingo, 35º C na sombra. De bicicleta, fazendo perguntas ao vento, vou ao Grama ver Dãozinho e Duce Carmo que vivem no baixio e fazem parte do bilhão de humanos que não tem água para beber.

 

Quantos desertos serão necessários, até que a gente se dê conta e transfira a Conferência da Terra e do Clima que acontece em Copenhague para os nossos corações?

 

Meus amigos sobrevivem da aposentadoria. No solo empobrecido não germina rama de mandioca. Mas, recordam de uma infância alegre e farta: pendão de milho lambia à cumeeira da casa e pula-pula de pedra em pedra sem banhar a barra da saia  para tanger  passarinho da plantação de arroz era brincadeira de menina Duce. Hoje, a ASA [Articulação do Semi-árido] está construindo uma cisterna que recolhe água de chuva pelo telhado para que eles não morram de sede.

 

O Grama está na Bacia do Rio do Chico e em toda parte.  Erguidas sobre uma fabulosa planície, as cidades lembram certo lugar da Ásia Menor. Há 11,5 anos nossos ancestrais escolheram Wadi Faynan para começar uma civilização. O clima fresco e úmido dava figos, legumes, cereais e cabras selvagens pastavam em campos verdes e floridos.

        

 Uma das provas da abundância de água na imensa Bacia do grande Rio está na quantidade de fósseis de preguiças gigantes de 16,40 pés de altura que viveu entre 1 milhão a 10 mil anos, espreguiçando-se na imensidão do vale. Por ironia, os fósseis foram descobertos durante as escavações para limpeza dos profundos caldeirões na época das extintas Frentes de Trabalho da Seca. 

 

Na boca do que, certamente, restou de um vulcão construiu-se a barragem para irrigar o Projeto de Colonização. O lago artificial,  originalmente não foi pensada para os humanos, hoje abastece três cidades, em avançado estágio de desertificação por conta do carvão vegetal que alimenta as siderúrgicas mineiras. Nas roças os moirões das cercas são tragados pela voracidade da areia que vai cobrindo tudo e deixando a mostra apenas a razão cínica.

 

O lençol freático dá sinais de esgotamento. A escavação de 40 metros de profundidade para um poço artesiano, que em outros tempos daria 10 mil litros/hora, hoje vaza desprezíveis 300 litros. Mas, na faculdade, onde as moças desfilam madeixas depois de 8 horas de escova progressiva para ficarem lisas como as moças de Copenhague, a terra cedeu no estacionamento cavando um buraco fedorento capaz de engolir um carro.

 

Assentaram a escola num esgoto?  Esgoto nada _ desdenha Dãozinho.  Aquele era um córrego de água doce e cristalina. A prova está na escada feita pelos antigos moradores para facilitar o trabalho das mulheres de encher as bilhas.

 

Se a 50 anos tinha plantação de arroz no Grama, a Lagoa de João Amaral,  hoje ameaçada pela especulação imobiliária, não era a única. Dãozinho meneia a cabeça, envergonhado de minha ignorância. Guanambi tinha uma lagoa para cada mês do ano, sem contar os caldeirões e as águas de minação. A Praça do Foro era um alagadiço onde todos apeavam os animais no dia da feira.  Sobre o monte, ocupado pelos Sem Terra  expulsos do Vale pelo algodão, profundos caldeirões davam  água o ano inteiro.

 

Uma nova barragem foi construída para aplacar a sede dos humanos, mas os moradores mais velhos alertaram que animal não bebia a água dos córregos canalizados para o lago. Não foram ouvidos.  Depois de construída a barragem, estudos demonstraram que, devido ao grau de dureza e cloreto, a água é imprestável para o consumo humano.

 

A morte do oásis de Dãozinho e Duce Carmo começou nos anos setenta com a abertura das fronteiras agrícolas. O vale do Iuiu, imenso pulmão verde de cedros e baraúnas centenárias, que equilibrava a toda a bacia,  foi derrubado e queimado para plantar algodão. No lugar da floresta um vai-vem de gente miúda e semi-escravizada em barracas de lona lutava para não ser pulverizada pela ganância e pelo agrotóxico, bombardeado por via aérea. 

 

Nessas cidades que não têm aterro sanitário e o chorume penetra o lençol freático, ergueram-se prédios públicos, bancos, mansões cinematográficas e um aeroporto. Concreto e asfalto cortaram suas artérias entupindo, aterrando e tampando os mananciais de água, nem o Riacho do Belém, que corria nos fundos do Museu de Dona Dedé, escapou! O Rio Carnaiba, que despeja impunemente sua lama no Rio das Rãs, que desemboca no São Francisco, foi criteriosamente concretado, e sobre ele montaram o mercado municipal.

 

Nesse vale formoso como as curvas de uma mulher ninguém pensou em se aliar a natureza e aproveitar as formas côncavas e banhadas para dele fazer uma Veneza de água doce. Por castigo, o lugar está cada vez mais parecido com o WF16, como é conhecido Wadi Faynan. E Copenhague é um triste retrato da nossa hipocrisia.

 

Domingo, 35º C na sombra. De bicicleta, fazendo perguntas ao vento, vou ao Grama ver Dãozinho e Duce Carmo que vivem no baixio e fazem parte do bilhão de humanos que não tem água para beber.

 

Quantos desertos serão necessários, até que a gente se dê conta e transfira a Conferência da Terra e do Clima que acontece em Copenhague para os nossos corações?

 

Meus amigos sobrevivem da aposentadoria. No solo empobrecido não germina rama de mandioca. Mas, recordam de uma infância alegre e farta: pendão de milho lambia à cumeeira da casa e pula-pula de pedra em pedra sem banhar a barra da saia  para tanger  passarinho da plantação de arroz era brincadeira de menina Duce. Hoje, a ASA [Articulação do Semi-árido] está construindo uma cisterna que recolhe água de chuva pelo telhado para que eles não morram de sede.

 

O Grama está na Bacia do Rio do Chico e em toda parte.  Erguidas sobre uma fabulosa planície, as cidades lembram certo lugar da Ásia Menor. Há 11,5 anos nossos ancestrais escolheram Wadi Faynan para começar uma civilização. O clima fresco e úmido dava figos, legumes, cereais e cabras selvagens pastavam em campos verdes e floridos.

        

 Uma das provas da abundância de água na imensa Bacia do grande Rio está na quantidade de fósseis de preguiças gigantes de 16,40 pés de altura que viveu entre 1 milhão a 10 mil anos, espreguiçando-se na imensidão do vale. Por ironia, os fósseis foram descobertos durante as escavações para limpeza dos profundos caldeirões na época das extintas Frentes de Trabalho da Seca. 

 

Na boca do que, certamente, restou de um vulcão construiu-se a barragem para irrigar o Projeto de Colonização. O lago artificial,  originalmente não foi pensada para os humanos, hoje abastece três cidades, em avançado estágio de desertificação por conta do carvão vegetal que alimenta as siderúrgicas mineiras. Nas roças os moirões das cercas são tragados pela voracidade da areia que vai cobrindo tudo e deixando a mostra apenas a razão cínica.

 

O lençol freático dá sinais de esgotamento. A escavação de 40 metros de profundidade para um poço artesiano, que em outros tempos daria 10 mil litros/hora, hoje vaza desprezíveis 300 litros. Mas, na faculdade, onde as moças desfilam madeixas depois de 8 horas de escova progressiva para ficarem lisas como as moças de Copenhague, a terra cedeu no estacionamento cavando um buraco fedorento capaz de engolir um carro.

 

Assentaram a escola num esgoto?  Esgoto nada _ desdenha Dãozinho.  Aquele era um córrego de água doce e cristalina. A prova está na escada feita pelos antigos moradores para facilitar o trabalho das mulheres de encher as bilhas.

 

Se a 50 anos tinha plantação de arroz no Grama, a Lagoa de João Amaral,  hoje ameaçada pela especulação imobiliária, não era a única. Dãozinho meneia a cabeça, envergonhado de minha ignorância. Guanambi tinha uma lagoa para cada mês do ano, sem contar os caldeirões e as águas de minação. A Praça do Foro era um alagadiço onde todos apeavam os animais no dia da feira.  Sobre o monte, ocupado pelos Sem Terra  expulsos do Vale pelo algodão, profundos caldeirões davam  água o ano inteiro.

 

Uma nova barragem foi construída para aplacar a sede dos humanos, mas os moradores mais velhos alertaram que animal não bebia a água dos córregos canalizados para o lago. Não foram ouvidos.  Depois de construída a barragem, estudos demonstraram que, devido ao grau de dureza e cloreto, a água é imprestável para o consumo humano.

 

A morte do oásis de Dãozinho e Duce Carmo começou nos anos setenta com a abertura das fronteiras agrícolas. O vale do Iuiu, imenso pulmão verde de cedros e baraúnas centenárias, que equilibrava a toda a bacia,  foi derrubado e queimado para plantar algodão. No lugar da floresta um vai-vem de gente miúda e semi-escravizada em barracas de lona lutava para não ser pulverizada pela ganância e pelo agrotóxico, bombardeado por via aérea. 

 

Nessas cidades que não têm aterro sanitário e o chorume penetra o lençol freático, ergueram-se prédios públicos, bancos, mansões cinematográficas e um aeroporto. Concreto e asfalto cortaram suas artérias entupindo, aterrando e tampando os mananciais de água, nem o Riacho do Belém, que corria nos fundos do Museu de Dona Dedé, escapou! O Rio Carnaiba, que despeja impunemente sua lama no Rio das Rãs, que desemboca no São Francisco, foi criteriosamente concretado, e sobre ele montaram o mercado municipal.

 

Nesse vale formoso como as curvas de uma mulher ninguém pensou em se aliar a natureza e aproveitar as formas côncavas e banhadas para dele fazer uma Veneza de água doce. Por castigo, o lugar está cada vez mais parecido com o WF16, como é conhecido Wadi Faynan. E Copenhague é um triste retrato da nossa hipocrisia.

 

[1] Juíza Federal do Trabalho e Doutora pela Universidade de Roma _ Tor Vergata e membro de AJD.


25/12/2009

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