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A Rede Globo não gosta de panetone?
NONATO MENEZES

              Não há como esconder a gravidade da crise a qual Brasília está submetida neste momento. Tráfico de influência e pilhagem se misturaram de tal maneira que faltam apenas as metralhadoras nas ruas para fazer lembrar Chicago dos anos trinta. E tudo indica que seus tentáculos não se limitam à geografia da Capital Federal. O cheiro da pilantragem já ronda os jardins e se continuar assim não demora romperá os pampas. E como era de se esperar, tem paraíso fiscal dando guarida aos seus butins.

                Até aí a rapinagem mantém seu curso normal e, mais dia, menos dia, voltaremos à trepidante rotina da nossa vida política. Afinal, arrefecer escândalo é "com nós mesmo", como diz o caipira.

                Mas há algo de estranho no ar. Afora o número de envolvidos e a dimensão do escândalo e os originais recintos de guardar dinheiro, chama atenção o comportamento da toda poderosa Rede Globo diante dos fatos.

                Os seus telejornais locais nunca foram tão severos com governantes como estão sendo agora. Não se limitam a noticiar. Os telejornais viraram verdadeiros espetáculos de imagens, repetidas à exaustão com os equívocos e os gestos dantescos dos envolvidos, sobretudo do Governador Arruda. As matérias são recheadas de ironias e sutilezas nunca observadas nesses telejornais. A Rede Globo DF se tornou um tribunal de inquisição moderno. Ela quer matar e esfolar o homem dos dois erros: do painel e do panetone.

                Bem diferente tem sido a importância dada à crise pelos telejornais de cobertura nacional. Há neles a tradicional formalidade. Noticia-se apenas. Seguem à risca a idéia que 'as imagens falam por si sós'. Assim, a emissora joga com dois pesos e duas medidas. Por que será?

Arruda cometeu o terceiro erro: avisou aos tripulantes do barco da bandalheira que afundaria atirando. Como o escândalo é muito grave, não houve como evitar a projeção nacional. E a ameaça de cair atirando assustou muita gente, então, o jeito é "pegar leve". E ninguém melhor para fazer o jogo sujo do que a Rede Globo de Televisão.

Nacionalmente o escândalo passa a ter uma coloração mais suave. Há menos dureza no tom de voz dos apresentadores e o apelo emocional ufanista desapareceu.

Aqui no Distrito Federal as cores estão bem mais escuras. O tempo fechou e não há saída. Os três poderes estão envolvidos. Tem muita gente desconfiada olhando por cima do muro. É a Capital e sua simbologia que estão manchadas. E a cada dia, ao nascer o sol, nasce, também, a expectativa de novas imagens, de novas denúncias. Parece não haver mais jeito de restabelecer a vergonha. Resta, por fim, a dureza da intervenção federal.

É nessa sofreguidão que a Rede Globo se posiciona. De um lado, empunha a espada para sangrar os envolvidos. Quer, por tudo, amordaçar o governador e sepultá-lo vivo. Há pressa para pôr fim ao escândalo, pois sua importância não está na roubalheira em si mesma, mas no que ela pode afetar a disputa eleitoral do ano que vem. E antes que o Brasil inteiro tenha clareza de suas ramificações, há urgência em matar o escândalo.

Daí as impressões que possamos ter dos telejornais locais: que o panetone provocou uma forte má digestão na Rede Globo. Impressão, apenas.

No cenário nacional a cobertura dada ao escândalo é bem diferente. É feita sem ufanismo e parece não querer punir ninguém. Está sendo visto como apenas mais um dos inúmeros momentos criminosos da vida política do nosso país.

Neste caso fica a impressão de que o panetone do Distrito Federal não tem muita importância, não provocou má digestão. Ao contrário, pensando nas eleições presidenciais do ano que vem e para evitar possível comprometimento de interessado em ser presidente, a Rede Globo, em nível nacional, não medirá esforços para adquirir a fábrica da Bauducco. Como tem sido de seu feitio.          


20/12/2009

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