Ética na Escola
*Lúcia M. O. Santis
Partilho com vocês reflexões a respeito da ética na escola. Uma síntese do olhar que, no momento, estabeleço sobre dois temas complexos: ética e escola. Ou seja, apresento o que entendo pelo assunto, entremeada pelo diálogo com outros autores.
O que entende-se a respeito do que é a Escola?
A escola é a instituição que tem a função específica de transmitir a cultura, ou seja, é o espaço de transmissão sistemática do saber historicamente acumulado pela sociedade, com o objetivo de formar os indivíduos, capacitando-os a participarem como agentes na construção da sociedade[i]. A escola cumpre funções ontraditórias, exerce ao mesmo tempo o papel de reprodutora e transformadora da sociedade em que está inserida. A escola Intervem, assim, nos rumos da sociedade, ao mesmo tempo que sofre influências da sociedade global.
No interior da escola o educador exerce sua profissão, que, por sua vez é constituída por dois aspectos básicos: técnico e político; o primeiro perpassa pelo domínio do saber e do saber fazer e o segundo pelo saber fazer bem e com competência. Todavia, o aspecto político é constituído de valores, historicamente definidos pelos homens dentro do contexto social[ii].
A idéia da competência pelo fazer bem direciona para um valor que não tem apenas um caráter moral, que não está desvinculada dos aspectos técnicos, nem dos aspectos políticos, é nesse ponto que a atuação do educador será mediada pela ética. Pois, é esta que norteará a definição e a organização do saber que será veiculado na escola, e, ao mesmo tempo, na direção que será dada a esse saber na sociedade[iii].
Portanto a ética é a mediadora entre este profissional e sua ação na escola - o educador/professor.
O educador, conforme pesquisas a seu respeito, a escolha desta profissão se dá pela vontade de realizar algo e a certeza de que pode e que vai conseguir dar algo de si para a educação das novas gerações[iv].
É um profissional insatisfeito com o que sabe, busca sempre mais. A escola, os alunos trazem desafios e vencê-los é uma necessidade, mais uma para enfrentar e se preparar. Está constantemente investindo em seu preparo. Se vai ter recompensa financeira ou social? Isto não importa, a ânsia por fazer e, fazer melhor é muito maior e acaba se sobrepondo[v].
Segundo Vasques-menezes & Gazzoti (1999), educar é uma profissão de fé. Uma profissão que vislumbra com a possibilidade de uma atuação quase divina, pois nela transformam-se/formam-se outros indivíduos à semelhança do profissional/educador, e os limites são finitos. Esta plenitude de possibilidades pode conduzir o profissional educador aos céus, mas também pode conduzi-lo ao inferno.
Ao se deparar com suas limitações, este profissional percebe que os objetivos pretendidos muitas vezes não podem ser realizados. A impossibilidade de realização plena do educador, e o retorno constante à sua realidade de trabalho cheia de dificuldades o impele para a dor, no sentido de sofrimento interno, muitas vezes surdo, mas sempre corrosivo[vi].
A dor que passa a viver ao sentir que ele não consegue atingir seus sonhos, suas obrigações: ensinar e formar as novas gerações; que sua infatigabilidade é uma utopia, pois no final da jornada de trabalho ele está exaurido e não realizou tudo que pretendia e que precisava; as limitações impostas pelas condições de trabalho; se frustra, se sente incompetente e vai escondendo até de si mesmo estas sensações[vii].
A negação passa a ser a estratégia usada para se defender, para poder continuar o seu papel. E, é na contradição das possibilidades e impossibilidades que ele tentará novas descobertas, novos rumos, novos objetivos. Porém, se ele não consegue traçar estes novos rumos inicia-se um processo de esgotamento físico, emocional e mental. E, aí mais uma vez ele criará um mecanismo de proteção a este sofrimento, ele passa a conter sua afetividade e com isto passa a fazer de conta que nada acontece e endurece emocionalmente. Lentamente, ele passa a desistir de sua profissão, tudo isto vai acontecendo de forma inconsciente[viii].
Com o endurecimento emocional, o vínculo afetivo é "supostamente" substituído por um mais racional, o professor começa a desenvolver atitudes negativas e críticas em relação aos alunos, atribuindo-lhes a causa do seu próprio sofrimento. Passam a ser vistos como inimigos. Eles são a concretização do seu problema, a prova material de que ele não está dando conta. O trabalho passa a ser visto pelo seu valor de troca; é a coisificação do outro, da relação, ou seja, o aluno passa a ser tratado como objeto de forma fria. Passa a ser um professor restrito a dar aula, como ato mecânico de transmissão de conhecimento[ix].
As características iniciais de idealismo e dinamismo deste profissional vão sendo minadas de forma corrosiva. Ele passa a viver encalacrado entre o que pode fazer e o que efetivamente consegue fazer, entre o que deve fazer e o que efetivamente pode fazer, entre o céu de possibilidades e o inferno dos limites estruturais, entre a vitória e a frustração; enfim, é um profissional com a síndrome da desistência do educador (a síndrome de Burnout) [x] que pode lhe levar à morte física, emocional e psíquica pelas reações psicossomáticas que advém desta[xi].
Esta é uma situação desconhecida por muitos pais, principalmente os que não têm filhos em escola pública. Porque é nesta que as piores condições de trabalho são vivenciadas pela desresponsabilização do Estado em investir num direito universal e constitucional que é a Educação. E, pela ausência de garantia do princípio ético de justiça social que perpassa a o direito à escola pública. Após falar de ética detalharemos mais a questão ética envolvida com a falta de um investimento efetivo na educação e, portanto, na escola.
Reflexões sobre a questão da ética
Ao falar de ética direciono-me à constante busca de princípios que norteiem e que dêem sentido às formas do pensar, sentir e do agir do ser humano. Na complexidade humana quando se ecoa a ética é devido à sua ausência perante o desequilíbrio nas relações de poder entre os homens. Nestas circunstâncias de alguma forma rompeu-se o venerável ofício de pretensão a SER e encaminhou-se em direção apenas ao TER. Não que os dois não tenham sua importância, todavia, o TER em equilíbrio está subordinado ao SER, ou seja, aqui o TER é apenas utilizado para a medida da realização do SER e, não o contrário.
Ao desejar atingir o SER, a mola propulsora do homem se encaminha na busca da harmonia e do equilíbrio não só individual como coletivo, porque ele sente, percebe que ele é parte de um todo, não é isolado, não existe e vive isolado, que o todo e as partes estão entrelaçados, interligados.
Sendo assim, ele investe toda sua energia de existir no querer alcançar a realização de princípios ideais[xii], vivenciando constantemente a reflexão a respeito do seu pensar, de seu sentir e de suas ações, ou seja, há uma indagação permanente sobre o pensar, o sentir e o agir: colaboro com este ou aquele pensar, sentir e ação, para o meu desenvolvimento harmônico pessoal e social? Quais as mudanças que preciso processar em minhas formas de estar no mundo?
Na Compreensão de que a busca de SER é permeada de um processo constante de transformações intencionais de si mesmo, portanto, com consciência dos limites e possibilidades de cada instante do estar no mundo é que, entende-se que o caminhar em direção de SER vai de encontro a princípios, a valores, de preservação da raça humana, por fim de uma ética, de uma representação de moral permeada de respeito a si e ao outro, de inclusão de si e do outro. Com isso não se quer afirmar que a construção do SER aconteça sem conflitos, sem dúvidas, sem atitudes individualistas, injustas, sem luta de poder, todavia, estas atitudes serão objetos de reflexão permanente que possibilitem o transpor destas limitações presentes na eterna busca de um SER cada vez mais harmônico, amoroso consigo e com os outros.
Porém, quando o ser humano direciona o sentido de sua vida para o TER, princípios, valores ocupam o espaço somente de conveniência que permita Ter, apenas Ter, cada vez mais. O valor do existir é pelos objetos que possua e que possa apropriar-se mais ainda. Neste campo até as idéias, as emoções passam a ser objeto a serem possuídos, não para a satisfação das necessidades básicas de um ser humano, mas para a ostentação[xiii].
No campo material aquela atitude é representado pela apropriação individualista e egoísta cada vez mais em ter casas requintadas, iates, carros de última geração, tecnologias de ponta, etc... O resultado desta apropriação desvairada por pouquíssimos, de quase 90% da riqueza que o planeta e os recursos tecnológicos possibilitam é a presença no mundo de miséria, fome, doenças, guerras sofridas por uma ampla maioria da raça humana e, dentre estas há inúmeras e inúmeras crianças. Que se encontram, especialmente nos países submetidos a estágios de exploração, por outros países ricos, na rua e sem escola.
Condições aquelas existentes que com certeza, a grande influência disto se encontra no fato de o homem social, cultural, político e econômico estar preso ao campo do TER. O pêndulo de equilíbrio de uma sociedade onde o TER é apenas suporte para a realização do SER, se rompe e, atualmente, o que temos é o norteador da sociedade desde o campo das políticas sociais, econômicas, educacionais, culturais, enfim em todas as decisões do micro ao macro, do macro ao micro por um "Grande Senhor do Mundo[xiv].", invisível, mas poderoso e que atinge resultados concretos e seqüelas visíveis e se denomina de: "MERCADO". Este grande senhor prega a veneração do TER, por meio de seu principal campo religioso: o CONSUMO. Haja vista que os grandes monumentos no mundo hoje são os grandes centros de consumo. Tudo é vendável, desde, a saúde à educação.
As seqüelas das orientações do Senhor do Mundo: O Mercado para a educação e a ética na escola.
Na concepção desse grande Senhor a economia de mercado é equiparada à democracia, e a liberdade econômica sem freios aos modelos de geração de riquezas para todos, é apresentado como o modelo de racionalidade por excelência, e o progresso consiste em estender esse modelo e, de qualquer modo, em aperfeiçoá-lo a todos os aspectos das relações entre os homens[xv].
Naquela concepção a economia está acima da política; a política monetária é fixada pelos bancos e não pelos governos, o mercado está acima da democracia, a competitividade é condição da criação da riqueza para que parte desta possa ser distribuída solidariamente (ainda que esta idéia não seja imprescindível nesse modelo social), como iria a educação escapar desse pensamento único? Se o campo educacional pode ser utilizado para a fixação de um novo senso comum que, no plano simbólico, faça confiável os pressupostos dessa concepção[xvi].
Com a ênfase do econômico no poder extralimitado do mercado. A visão de educação por meio da metáfora do mercado, é:
"uma mercadoria a mais que, como qualquer outro artigo ou serviço, tem um preço e é comprado ou vendido; os alunos tornam-se consumidores de produtos, os pais decidem onde ir para comprar, os professores são agentes que dispensam o serviço solicitado pelos clientes, e os administradores são os árbitros de todo esse jogo para que funcione corretamente. Um jogo que tem uma regra, uma ordem, uma lógica, alguns interesses e uma linguagem: busca de excelência, inovação, competitividade, controle de resultados, eficácia, melhoria das qualificações, venda de serviços, habilidades, círculos de qualidade, escolas eficazes[xvii]
Todavia, nessas idéias o que não é explicitado é se no apregoado direito da escolha da escola do filho quais são as reais "intenções de estímulo à qualidade do sistema público e de desejos de dispor de um sistema mais pluralista com escolas alternativas até à pretensão da abolição do sistema estatal de escola pública" [xviii].
Além do mais, as formas de informação sobre a oferta do mercado em educação, como relatórios de rendimento das escolas, ocultam fatores que intervêm em sua determinação e confundem a opinião pública, que os interpreta sem muitas sutilezas, tais como as diferenças sociais existentes entre escolas públicas e privadas, e produz a percepção de que as diferenças de rendimento escolar são devidas aos professores e ao tipo de ensino e de escola. Com isso, de antemão condenam o setor público em seu conjunto que, por condicionamentos sociais óbvios, em termos gerais, possívelmente dá menor rendimento, já que não são freqüentados pelas mesmas classes sociais que acorrem às escolas privadas[xix].
Portanto, essa metáfora do mercado é inadequada para a educação, primeiro pela diferença de objetivo de cada um. Pois, a finalidade do mercado é a obtenção dos máximos benefícios econômicos possíveis e a da educação é fazer avançar e disseminar o conhecimento ao maior número de pessoas possíveis. Segundo, quem se responsabiliza pelas crianças das minorias, pelos repetentes, ou, simplesmente, daqueles que obtém rendimento escolar mais baixo[xx].
A pretensão à diversidade e o respeito à livre escolha em situações que partem da desigualdade, oculta, a admissão e o estímulo desta. "É muito honroso cobrir-se com a linguagem a favor da liberdade, mas é imoral encobrir, com isso, a manutenção de privilégios e a negação a misturar-se com os que não são iguais a si mesmos"[xxi].
Incrementar a possibilidade de escolha entre escolas significa favorecer a separação entre estudantes por sua raça, sua classe social e o ambiente que os rodeia em sua origem. E a primeira estratificação que se produz é a que separa os que realmente fazem escolhas entre o que existe, os que não a fazem porque não sabem e/ou não podem fazê-las. Os pais que o fazem ou podem fazer uma escolha têm determinadas características culturais e socioeconômicas[xxii].
As diferenças de qualidade entre as escolas segundo a concepção de mercado não está nos poderes públicos que, em nome do Estado mínimo, abstêm-se de modificar o curso da sociedade, mas nos professores incompetentes e dos pais que toleram a sua existência levando seus filhos a essas escolas. O poder público contenta-se em tornar possível a fuga das mesmas. Para essas políticas, não há contexto social que provoque diferenças entre escolas, em seu clima e na qualidade de resultados. Não são necessárias políticas de compensação. "É como se a "natureza" fosse a força provocadora da diversidade escolar, e nós, de fora, não pudéssemos ser mais do que espectadores respeitosos e conservacionistas da seleção natural"[xxiii].
CONSIDERAÇÕES
Com isso constata-se a necessidade de uma outra razão ética que vá além daquela idéia de pluralidade de escolha e de opiniões, ou seja, "a constituição de uma outra moralidade que favoreça a idéia da necessidade de uma compreensão universalista do bem comum"[xxiv].
Que reconheça as condições precárias de trabalho oferecidas aos educadores, em especial das escolas públicas, para que possam efetivamente dar conta do compromisso de promover a inclusão dos seus alunos por meio do conhecimento, de levá-los a refletir sobre a cidadania e responsabilidade de co-construtores de uma sociedade de PAZ. Porém, para que isto aconteça efetivamente é necessário que haja uma outra ética nas decisões políticas de governo ao programar os investimentos no setor educacional. Não pode ser um FAZ-DE-CONTAS como temos presenciado, quando recursos da educação são desviados para construções de monumentos que dão visibilidade política, ou para propagandas de educação que nada tem a ver com a promoção da educação.
Enquanto isso não acontece de fato, os professores que são o recurso humano importante para a formação dos alunos, exaurem-se na realização de sua tarefa e, conseqüentemente, adoecem fisicamente, emocionalmente e psiquícamente. E, não bastasse isto, ainda, são chamados de preguiçosos e incompetentes por setores do poder público. Também, ainda, presencia-se a precarização das estruturas das escolas públicas e o aumento crescente da violência social. Então, falar de ética na escola é falar do direito ao respeito do princípio ético de justiça social, sobretudo de justiça real nos investimentos em educação para todos.
Dessa forma acredita-se que a escola terá condições de se firmar cada vez mais no papel necessário de construção de uma outra ética do gênero humano[xxv] que reflita permanentemente o caráter ternário de que fala Morin da condição humana: INDIVÍDUO/SOCIEDADE/ESPÉCIE.
Não uma ética baseada em lições morais, mas voltada para a consciência deste ternário que somos. No entendimento de que o desenvolvimento humano compreende o conjunto do desenvolvimento das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Portanto, de contribuição da educação, para uma outra ética e um outro senso comum de que a TERRA é nossa PÁTRIA e, na possibilidade da criação dessa outra consciência se traduzir em vontade de realizar a cidadania terrena[xxvi].
[iii] (Rios, 2001: 34)
[iii] (op. cit. p. 48)
[iii](op. cit. p. 48)
[iii] Vasques-menezes & Gazzoti, 1999.
[iii] Op. cit.
[iii] Op. cit
[iii] Op. cit
[iii] Op. cit.
[iii] Op. cit
[iii] Op. cit.
[iii] Informação obtida em palestra: a síndrome de Burnout, proferida pelo Psicólogo Alberto Amaury, especialista nesta síndrome, e 20/10/2005, à professores na Escola Classe 708 Norte.
[iii] Compreendo o conceito de ideal como algo que investido de ação, é possível de concretude e, de aperfeiçoamentos constantes. inferente de uma suposta idealização, que não investida da atuação possível se prende a uma concepção perfeccionista e fantasiosa (Pierrakos, s/d).
[iii] Apple, 2005.
[iii] Sacristán, 1999.
[iii] Sacristán, 1999; Apple, 2005.
[iii] Op. cit.
[iii] op. cit., p. 240.
[iii] Op. cit., p. 243
[iii] Op, cit.
[iii] Op. Cit. 247.
[iii] Op, cit. , p. 258.
[iii] Idem anterior
[iii] Op, cit. , p. 259.
[iii] Op, cit. , p. 262.
[iii] Morin, 1999.
[iii] Op. cit
Referências
Apple, Michael W. Para além da lógica domercado: compreendendo e opondo-se ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
Rios, Terezinha Azerêdo. Ética e competência. - 10. ed - São Paulo: Cortez, 2001. - (Coleção Questões da Nossa Época; v. 16)
Sacristán, J. Gimeno. Poderes instáveis em educação. Porto alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Morin, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Editora UNESCO, 1999.
Pierrakos, Eva. O caminho da autotransformação. São Paulo: Editora Cultrix, s/d.
Vasques-menezes, Ione & Gazzoti, Andréa Alessandra. A si mesmo como trabalho. IN: Educação: carinho e trabalho/ Wanderley Codo (coordenador). - Petrópolis, Rj: Vozes/ Brasília: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação: Universidade de Brasília. Laboratório de Psicologia do Trabalho, 1999.
*Lúcia Maria de Oliveira Santis, Mestre em Educação pela UNB; Especialista em Psicomotricidade Ramain/Thiers; Pedagoga/Orientadora Educacional, na Rede Pública de Ensino do Distrito Federal.
Email: luciasantis@ig.com.br