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"As imagens não falam por si só" e o "suposto"
NONATO MENEZES

         O show proporcionado pela 'grande mídia' em torno do que o Presidente Lula fala virou um espetáculo de relevante mediocridade. É um espetáculo jornalístico de quinta categoria e parte de um jogo político hostil e imbecilizado. Além das tradicionais redações que seguem seus manuais padronizados, passando por 'cronistas de cátedra', chegando aos jovens repórteres animados com a visibilidade, o que a mídia, em geral, tem nos oferecido nesses anos de governo Lula é um acirrado discurso sobre o que é menor. Se perdem falando do efêmero como bolha de sabão.

          Numa desesperada tentativa de ridicularizar o Presidente, a mídia faz pouco caso de tudo que é dito por ele, não se permitindo verificar o quanto esta ação é ridícula, pois, preocupada em macular a imagem e carisma de Lula, ela nem consegue atinar para seus próprios equívocos semânticos, quando o discurso oco se esforça para se sustentar na moralidade e no poder de persuasão que ainda acredita que sejam suas referências.

          "As imagens não falam por si só", expressão usada pelo Presidente, ao comentar a divulgação visual do comportamento da quadrilha que estava saqueando o Distrito Federal, deixou a mídia assanhadíssima, que veio a usá-la por vários dias como assunto primordial. De insinuações grotescas a claras manifestações de desrespeito ao Presidente, tudo o mais foi possível ser lido, visto e ouvido. Sem meias palavras, os comentários, as reportagens e as mais diversas explanações midiáticas apontavam para um Presidente 'conivente', 'incapaz de perceber o óbvio', afeito ao 'não estou nem aí' e muito mais ao que a isso se assemelha. Foi tão valorizada a expressão do Presidente que o mesmo teve que voltar ao assunto e detalhar o que havia dito. Bastou o Presidente usar a palavra 'deplorável' para contentar os famintos de verdade, de posições absolutas. O que não fez retirar o dito antes, apenas reforçou que as imagens não eram suficientes, pois havia uma investigação e elas seriam elementos da peça jurídica.

          É claro que a mídia não se sentiu satisfeita, pois continuou a fazer o papel que tem feito: o de tentar ridicularizar o Presidente. Desta vez, por todos os meios, tem proferido aos seus leitores, ouvintes e telespectadores que houve em curtíssimo tempo dois pontos de vista diferentes sobre um mesmo fato. Assim, quer que aceitemos que ocorreu uma 'mudança de opinião' repentina depois de ter sido por ela pressionado.

          Do comportamento da mídia diante dos dois momentos ficou a seguinte leitura: a primeira manifestação do Presidente, dita espontaneamente, ela condenou, esbravejou, agrediu, debochou. A segunda manifestação, dita 'por pressão', ela própria a incorporou e divulgou como sendo de sua iniciativa. Fica então, a idéia de que aquilo que o presidente deverá dizer, primeiro deverá perguntar aos donos da verdade e se assim não for, terá que fazê-lo por pressão.

          O próprio Presidente disse que viu as cenas e delas fez seu próprio julgamento. E como a insensatez não é sua marca, disse apenas que as imagens não eram suficientes para, naquela circunstância, serem julgadas como elementos conclusivos de um julgamento prévio ou, quem sabe, de uma 'condenação'. O que, de fato, não são. Tanto é que o próprio Tribunal, com as imagens e investigações, não expediu nenhum mandado de prisão, só de busca e apreensão. Se o próprio Tribunal não tinha elementos suficientes para 'condená-los', por que o Presidente haveria de ter?

              Com tanto alarido da mídia em torno daquela expressão, vejamos o olhar de verdade, de absoluto da própria mídia para o caso. Não só para as imagens, mas para o caso em toda sua extensão.

          É provável que o Presidente não tenha lido nem parte do inquérito, tenha se limitado às imagens e informações de sua assessoria. Ao contrário dos nobres jornalistas e cronistas que, para divulgarem suas verdades, certamente tiveram acesso às imagens, às gravações de áudio e ao próprio inquérito do STJ que está integralmente disponível na Internet.

           Aqui uma pergunta: quem mais teria elementos para fazer um julgamento "definitivo, absoluto ou, até mesmo condenar os envolvidos" a partir do que há de disponível como elementos para consubstanciar uma posição, a mídia ou o Presidente da República?

          Fica a resposta em aberto, mas o fato é que, mesmo com todos os elementos já disponíveis, a mídia, em momento algum, fez valer o que cobrou do Presidente: uma condenação prévia, a partir das imagens. Ela, reiteradamente, e fazendo um esforço enorme para nos mostrar que tem responsabilidade, que não condena antes da justiça, que não julga "sem provas" faz jogo de partido de oposição inconseqüente, de ser contra por ser contra, de não se atentar para seu próprio ridículo. Daí porque, sem se referir ao fato, mesmo com todos os elementos disponíveis, esconde-se atrás do termo "suposto".

          Mesmo com as imagens, gravações de áudio, o inquérito integralmente nas mãos e até depoimentos, a mídia continua a achar que há ali um 'suposto crime'. Que aquelas são 'hipóteses', 'provas fictícias', 'imaginárias'. A "incerteza" da mídia sobre esse fato é tanta, que um cronista usou a seguinte expressão: "... identificação dos supostos envolvidos no suposto pagamento de propina a parlamentares da base aliada na Câmara Legislativa". Isso depois das imagens de corruptos fazendo orações de agradecimento, de conversas baixas e portas fechadas por cautela e meias cheias de dinheiro e um inquérito detalhando o saque.

          Significa, então, que não cabe à mídia previamente condenar os "supostos envolvidos" pelos "supostos crimes", ou seja, antes da Justiça fazê-lo. Fica claro que, apesar de todos os elementos citados, a mídia deve agir com cautela, suposição, imaginação, enquanto cobra uma atitude, antes de qualquer decisão jurídica, do Presidente da República. Na visão dela, o Presidente tem que julgar, condenar previamente, mesmo tendo apenas como elementos, as imagens.

          Entre "as imagens não falam por si só" e o "suposto", fico com a primeira expressão, por mostrar sensatez, responsabilidade e sabedoria. Mesmo que tenha, 'por pressão', que acrescentar a ela a palavra "deplorável". Quanto a segunda, suponho que esteja sendo usada como discurso da arrogância, da esperteza, da maledicência, da mediocridade. É o velho, desgastado e típico discurso da nossa "grande mídia". O que é deplorável.

 


06/12/2009

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