Abre aspas. Não vi, não tomei conhecimento, não fui informado e não sei se existe a tal lista de votação. [...] Bom, gente! Não! Vamos continuar. Se é para provar, vamos provar. Não dormi esta noite. Me permitam tomar mais cinco minutos da atenção de Vossa Excelência. Respeitosamente, permitam-me. Olha, senhor presidente, permitam-me com o meu sofrimento, com as vísceras da minha emoção expostas à execração pública. Eu que não tenho bens pessoais, não tenho fortuna, mas tenho a honra e tenho filhos que tem o meu nome, os naturais e os que adotei. E a esta honra eu serei fiel enquanto viver. Está na hora de dar um basta. Chega![...] Fecha aspas.
Este é um trecho de um dos discursos do então Senador da República José Roberto Arruda, na ocasião em que foi acusado de ajudar a violar o painel de votação do Senado Federal, em 2001.
Crime que nas cenas do último ato, sobraram prantos, palavras patéticas de arrependimento e por fim, a renúncia.
"Pandora era a filha primogênita de Zeus que, aos 9 anos de idade, recebeu de presente de seu pai o colar usado por Prometeu que foi retirado dele ao pagar a sua pena por roubar o fogo dos deuses. Pandora, então, arranjou uma caixa para pôr seu colar, a mesma caixa em que ela guardou a sua mente e as lembranças de seu primeiro namorado, cujo nome era Narciso. A caixa podia apenas guardar bens de todo o tipo, com exceção de bens materiais. Como o colar era um bem material, ele se auto-destruiu. Para Pandora o colar tinha valor sentimental, o que a fez chorar por muitos dias seguidos sem parar. Como a caixa guardava lembranças com a intenção de sempre recordar-las ao "dono", Pandora sempre se sentia triste. Tentou destruir a caixa para ver se ela se esquecia do fato, mas não funcionou, a caixa era fruto de um grande feitiço, que a impedia de ser destruída. Pandora então, aos 36 anos, se matou. Não aguentou viver mais de 27 anos com aquela "maldição".
O trecho do discurso acima e esta narrativa, tão distantes no tempo e na simbologia, se aproximam por alguns termos que nelas há de comuns. Explicitamente ou não, ambas tratam de bens materiais, de emoção, de lágriamas, de surpresa, de feitiço, de prole e de auto-destruição. Se aqui podemos identificar aproximação entre mito e realidade, o mesmo não podemos dizer sobre o que os distanciam.
Afinal, longe da beleza do mito estão o cinismo, a grosseria e a soberba. Não serão estes os valores que arruinam a vida dos homens?
Parabéns à Polícia Federal, não pela operação em si, pois isto é sua obrigação, mas pela argúcia da escolha do nome dado a ela.