Na manhã de um sábado de sol há um clima diferente pairando, a escola não está fechada, como antes era usual, agora meninos e meninas, alguns estudantes da escola, outros não, movimentam-se livremente, encontram amigos, entram e saem, visitam as diversas oficinas, optam por uma ou outra, ou mesmo vão embora, para voltar noutro momento.
Um grupo numeroso joga futsal na quadra sob o comando de Ian, 14 anos, que logo reivindica uma bola nova, aquele está detonada. Numa sala de aula, se pode ouvir os acordes diversos de uma dúzia de jovens que aprendem violão. No laboratório de informática as aulas de Word ou de internet são disputadas por crianças, jovens e adultos. Noutra sala, aula de dança.
Na sala de artes, senhoras jovens e jovens anciãs enredam-se nas diversas mesas, formam grupos, bordam, pintam seus tecidos, convivem, entretém-se, tricotam nos diversos sentidos da palavra. À tarde, o pessoal da atividade social que já atua há anos, sob o comando de Jairo, junta-se às atividades do programa, com seriedade e freqüência religiosas. Mais tarde, outro grupo de senhoras retoma sua atividade, com tecidos, tintas, linhas, agulhas, pequenos e repetidos gestos de mãos, sensação de bem estar que adentra até à boca da noite. Há ainda oficinas de queimada, barbante, pintura em tecido, manicure, sandália em pedraria, bijuterias, hip hop, pet work. Meninos da quarta série, de escola próxima, tios, avós, vizinhos vem. Da Cidade Ocidental, da Samambaia, do Recanto, gente que fica o dia inteiro.
Uma senhorinha pequena e simpática, vem de Santo Antônio do Descoberto, quase duas horas de ônibus, cansaço nas pernas, mas vem, senhoras donas de casa fazem das tripas coração para não faltar nunca, Dona Rosimar, funcionária da escola, também sempre vem, faz crochê, manufaturas em barbante, e informática, e raramente deixa de vir.
Dalvaci, coordenadora escolar, sempre presente, supervisiona o trabalho das diversas oficinas, serve lanche, guarda o material, tem as chaves, diz que a escola aberta mudou a sua vida, diminuiu o stress, é procurada durante a semana para dar informações sobre as oficinas. Jacqueline, professora comunitária, que mora perto, logo chega com o talão de cheques para fazer o pagamento mensal da ajuda de custo dos oficineiros, pois hoje é dia de receber, um ingrediente importante no programa. Jacqueline considera que o programa é integrador, socializador, funciona como uma terapia ocupacional. Quem está faltando chega, é o Lauro, coordenador do Escola Aberta na regional de ensino, riso largo e cabelo em pé, câmera digital, combi zerada, para de novo prometer pagar o almoço que até agora nada.
Quando resolvemos adotar o Programa Escola Aberta, diversas reações negativas se manifestaram. Só mesmo um diretor inexperiente vai querer mais trabalho, disse alguém, outro interrogou assustado sobre diversas outras dificuldades, a limpeza da escola, o lanche, a segurança, o medo, abrir as portas da escola na periferia, a invasão de vândalos e pichadores, as drogas, os marginais, o apocalipse.
Agora já temos um ano e meio de escola aberta. Quantas crianças e jovens deixaram de tomar um mau caminho em virtude do programa? Quantos momentos de alegria foram vividos? Quanta violência foi evitada? Respostas que não nos arriscamos, pois cairíamos no mar do imponderável. Algumas dificuldades, alguns equívocos. Temos doze horas de lazer, cultura e diversão nos fins de semana para muita gente que agora tem mais um motivo para ser feliz. Agora já temos uma convicção: já passou o tempo em que era possível nos arrependermos.
Magno Rocha Ramos[1]
Diretor do CEF 16 de Taguatinga, novembro/2009.