A boa vontade do professor em ensinar e do aluno em aprender não são elementos suficientes para que o pensamento esteja presente, nem tão pouco para que o saber se concretize no ambiente escolar. Boa vontade não garante o êxito do fazer pedagógico. O que provoca e garante a aproximação com as grandes descobertas é o contato com o mundo que se deseja apresentar ou que se quer conhecer.
No Brasil, o processo de construção do verdadeiro conhecimento, que deveria ser a meta das nossas instituições educacionais, é algo ainda um tanto quanto fictício no espaço onde mais se deveria construí-lo: A ESCOLA.
A escola é um lugar "preparado" para que alguns indivíduos ensinem e que muitos outros indivíduos aprendam. E é exatamente aí que se destrói o objetivo central da ESCOLA. Os INDIVÌDUOS não aprendem quando outros querem que eles aprendam. Só se aprende quando se deseja saber algo. O desejo de aprender só nasce a partir da inquietação. A inquietação só vem a partir da exposição e do contato. Oferecer ao aluno oportunidades para fazer nascer neles o desejo de querer aprender requer preparo em diversos seguimentos.
Este já é um discurso antigo. Todos já são sabedores disto.
O verdadeiro papel da escola é o de suscitar, o de estimular, o de mexer com a inteligência.
Deveria ser a escola, um lugar onde o caos interior fosse propositadamente estabelecido, para que os educandos, vivendo conflitos interiores, fossem buscar verdades que satisfizessem suas curiosidades naturais de indivíduos. Mas é impossível buscar verdades, buscar o intelecto, em locais cheios de carteiras quebradas, por entre paredes escuras, e em laboratórios de insatisfação de profissionais que ali trabalham. É impossível buscar conhecimentos em um local sem livros, sem fonte... Não se pode beber em fontes fantasiosa. Assim são nossas escolas.
A grande maioria de nossas escolas públicas não conta com um espaço que é imprescindível numa instituição educacional, que é a biblioteca. Como se adquirir o conhecimento sem livros? Impossível!
A escola deveria ser o lugar da provocação, da busca e do encontro de muitas verdades. Assim, cheia de pensantes inquietos e ávidos de saber, a escola seria de fato o berço do conhecimento.
O verdadeiro pensamento só se "concretiza" a partir do caos que se estabelece na mente do pensante. As nossas escolas não têm uma estrutura que propicie o estabelecer do caos na mente do jovem. Antes, ela fortalece o caos da vida, o desconforto provocado pelo não saber.
A escola , antes de provocar, define, conceitua, impõe, limita; entrega verdades prontas, pré-estabelecidas, sem ao menos procurar fazer comparações relevantes para que se levantem dúvidas. O indivíduo, que já recebe as tais verdades prontas, se acomoda, e o comodismo é o maior inimigo das descobertas. A falta de estímulo do profissional de educação é um dos principais motivos desta verdade social deplorável. Faltam, a estes profissionais, remuneração e o preparo. A cada ano, os jovens professores saem das universidades, mais despreparados para abraçar as tarefas de mestres.
A escola acomoda, quando o seu papel deveria ser inquietar. A nossa escola não provoca a dúvida, não provoca hipóteses, não provoca insatisfação, (pelo menos não a insatisfação cuja meta é o conhecimento). Ela tem poucos caminhos para o aluno percorrer para buscar respostas. Então, a opção é a quietação, o comodismo.
A dúvida. A hipótese. A insatisfação. Estes três elementos não podem mesmo fazer parte de uma instituição falida que não está preparada para dar subsídios para que aconteçam as grandes inferências.
Muito despreparada no campo material e humano, despreparada ao ponto de não poder exigir de seus profissionais um trabalho digno, ou de nem poder escolher de forma responsável os seus profissionais, a ESCOLA pública brasileira, é ainda, apenas um depósito de jovens que são por ela avaliados o tempo todo de forma irresponsável e desumana, sem que a estes jovens seja dada a real chance de crescimento intelectual. Até porque faltam também cuidados na formação e na remuneração dos professores, para que destes fossem cobrados trabalhos realmente significativos que colaborassem com a formação de cidadãos desejosos e capazes de buscar novos horizontes.
No Brasil, ainda não se descobriu de verdade a real função da escola. Ela foi instituída apenas para defender o mercado de mão de obra mal remunerada. Nossa escola é o lugar de "formar" subempregados. A maioria dos nossos alunos, quando dá sorte, ao terminar o ensino médio, fica sem nenhuma perspectiva de vida, tal é o seu despreparo.
O currículo escolar é elaborado para satisfazer ao mercado que explora a mão de obra. A identidade dos seres para os quais ele está direcionado não é em nenhum momento levada em conta, e quando o é, a pobreza da instituição escolar não deixa concretizar.
Nossas escolas são mesmo uns grandes depósitos de pessoas que na verdade "queriam" sonhar. Professores e alunos são condenados, muitas vezes, sem consciência disto, a ver seus anseios mortos nos corredores escuros das nossas escolas públicas. Grande ferida social.
A escola que deveria fazer SER, consome o SER. Faz o indivíduo definhar. O mercado que é o grande alvo, acaba também não sendo atendido, pois a escola é, por exemplo, uma das únicas instituições que contrata estudantes para exercer a função de profissional (as nossas escolas estão cheias de estudantes bancando o papel de professor). Assim, despreparada e desrespeitada, nem a função de atender a um mercado explorador a nossa escola pública está realizando. O indivíduo, oriundo dela, encontrar-se-á a cada dia mais perdido, já que no espaço escola, nada se faz de substancial para transformar o homem em cidadão verdadeiramente participante da vida política e social que borbulha à sua volta.
Nossas salas de aulas são o lugar onde se doma almas, quando deveria fazê-las vibrar, voar.
Dizer o que foi dito acima é lastimável, primeiro porque são verdades, verdades desumanas e depois, porque não são novidades. É um crime social que ninguém discute, que ninguém resolve, pelo qual, ninguém luta efetivamente.
Muitas são as mudanças no campo da educação, só que nossa escola ainda não as alcança, não as vivencia. E enquanto isto, nossa juventude morre, da morte mais absurda, a causada pelo desconhecimento.
Discursos nesta direção precisam ser feitos a todo o momento, para que acordemos e vejamos o grande mal que nossas escolas ainda fazem aos nossos jovens e consequentemente a todos nós, envolvidos neste sonho inatingível: o sonho de uma escola que busque de verdade e a igualdade SOCIAL. Uma escola que acolha nossas diferenças para nos proporcionar direitos iguais, com acesso à Arte, ao Esporte e à Ciência.
Grasce Gondim [1]
Professora da Rede Pública Estadual e Municipal de Salvador-BA